O Brasil é um bar de caranguejo dobrado

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Há não muito tempo, mas o bastante para que os anos já não se contem apenas com os dedos das mãos, a moda era frequentar o bar de caranguejo. Se o crustáceo era servido aos pares, isto é, duplicado em espécie, mas pago a preço unitário, sobravam razões para que o final de semana começasse desde logo na quarta-feira. Naqueles idos imberbes, o glamour era compensado pela casualidade e eu mesmo, que nunca fui um aficionado da iguaria, folguei-me a frequentar esses ambientes pouco elevados.

Se às quartas-feiras a oferta era dobrada, que não se esperasse o mesmo dos finais de semana, quando se negociava com o garçom a gorjeta ampliada – uma senha para que ele garantisse, ao menos, um exemplar íntegro e higienizado.

Por integridade, estive me referindo às suas oito patas (incluindo as puãs) presas ao abdome, posto que lidamos com um animal pereópode. Quando falei em higienização, entretanto, tratei da escovação básica, sem nenhum requinte adicional, enxágue ou creme Rinse.

O bar de caranguejo era uma espécie de antessala da balada, mas também era a própria balada. Não me cabe aqui esconder o jogo. Guardo solenemente uma conta impressa com o meu tempo de permanência no Buxixo, ultrapassando a barreira dos dois dígitos por boa margem.

Bares de caranguejo sempre foram ambientes ruidosos, até porque encerram a particularidade de servir como caixa de ressonância da sociedade, em especial à sociedade baiana, constituída por um povo combatente, presepeiro e sonoro.

Nesse aspecto, seguramente, as revoltas dos Malês, dos Alfaiates e mesmo a democratização do E. C. Bahia foram articuladas ali, num bar de caranguejo, ou em uma de suas variantes temporais. Não duvido também que estes movimentos pró-impeachment tenham sido uma conjuração tramada sob tais circunstâncias.

A propósito sobre o Fora Dilma, uma parte da imprensa faz repercutir a tese de que ele foi um movimento gestado em um bar de caranguejo gourmet – onde o crustáceo é servido com luvinhas de plástico e a caipiroska, preparada com Absolut Vodka.

Eles podem ter alguma razão, mas nada do que dizem me importa nesse momento. Do barzinho, hoje, só me interessa o parque infantil. Dos caranguejos, que eles simplesmente retornem ao mangue para onde, por sinal, o Brasil já foi há muito tempo.

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Marcelo Pitombo é blogueiro Contextual, engenheiro por formação, fotógrafo e blogueiro por deformação.

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