O país do golfe

Caraíva, sul da Bahia, carnaval de 2015. Deitado na cama da pousada no final da tarde assisto a um jogo da Champions League entre PSG e Chelsea. Quase no final do jogo, acontece uma falta a favor do PSG no campo de ataque. David Luiz, aquele mesmo que virou um “porra louca” nos 7X1 e que chama mais atenção pelo cabelo e pelas “selfies” do que pelo futebol jogado, pega a bola para bater e malandramente apaga a marca do spray feita pelo arbitro e a “repinta” em uma posição mais favorável à cobrança. Desligo a televisão, envergonhado, perdi o interesse. (http://espn.uol.com.br/video/485053_david-luiz-apaga-marca-de-spray-do-gramado-para-ibra-mudar-posicao-de-cobranca-de-falta?target=mais-vistos)

Desde que me conheço por gente adoro futebol. O primeiro presente que tenho lembrança foi uma camisa do Flamengo. O brasileiro, em sua maioria, é fanático por futebol. Infelizmente.

Tenho uma tese, não publicada e muito menos testada, de que esta alcunha de “país do futebol” é uma das raízes dos males do Brasil: do “jeitinho brasileiro” aos mensalões e petrolões recentes. Minha tese se abre em duas frentes, a do esporte como torcida e do jogo jogado.

Como torcedor de futebol, o brasileiro se acostumou a ver tudo como um FlaXFlu ou um Brasil X Argentina, não havendo lugar para meio termo, ponderações ou concessões. Exemplos disso são as últimas eleições e as discussões sem fim nas redes sociais. PT X PSDB, Lula X FHC, Dilma X Aécio. Ninguém abre mão de um milímetro em suas convicções mesmo elas estando claramente erradas ou sendo absurdas. A filosofia de que só quem pode falar mal do meu time sou eu é mais do que evidente.

No jogo jogado, a falta de educação, a malandragem, a esperteza, a falta de respeito às regras e às normas, tão presentes no futebol derivam-se para o nosso cotidiano, política, cultura, educação, jeito de pensar e agir. Futebol é jogo para gente esperta, e nós, brasileiros nos tornamos diariamente jogadores “cavando” pênaltis e mudando as cobranças de falta de lugar, e pior, muito pior mesmo, é que nos sentimos orgulhosos disso e acreditamos estar certos.

Penso comigo, se aquele velhinho inglês, que há muitos anos trouxe o futebol para estas terras, tivesse trazido um taco e uma bola de golfe será que não seríamos um povo mais educado e menos corrupto? Talvez não, mas com certeza teríamos menos feriados em anos de Copa do Mundo.

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Marcelo Brandão é empresário e sócio minoritário do Governo, não acredita mais no Brasil mas escreve com esperança de mudar alguma coisa

#MarceloBrandão

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