Lennon ou McCartney?


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Sutilezas da cultura da comparação e competição

Assisti a um vídeo na internet onde algumas celebridades respondiam a seguinte pergunta: quem é melhor, Lennon ou McCartney? Fiquei pensando se essa pergunta era mesmo válida, tendo em vista a genialidade, não só desses dois Beatles, mas do quarteto inteiro. Muitos responderam rapidamente, outros demoraram para chegar a uma conclusão, outros deram respostas fora da enquete e outros ficaram perdidos no silêncio. A brincadeira foi divertida, mas fiquei pensando a respeito da nossa sutil cultura competitiva e suas consequências. Por que é preciso existir sempre um melhor?

Percebi que, em muitas rodas de conversa, sempre que uma pessoa elogiava algo ou alguém, outra retrucava imediatamente com o porém: "mas fulano é melhor". Nem sequer falam "fulano é bom também". Esse senso de superioridade parece uma inocente busca pela perfeição, pelo aprimoramento entre os seres humanos, ou por um ajuste de variáveis para se chegar a uma classificação mensurável. Estaria a outra parte, ou seja, quem não é o "melhor", eliminada de qualquer valorização, só porque existe algo supostamente acima? As coisas ou pessoas legais não podem coexistir? Sem mesmo adentrar aos parâmetros de comparação, a escolha de um melhor anula todos os demais e ninguém enxerga o que simplesmente também é "bom".

Considero diferente em um jogo ou uma competição, onde algo está claramente medido mesmo que seja uma brincadeira descontraída entendendo que ganhar e perder faz parte da vida. Mas, absorvemos quase instintivamente no cotidiano a busca de um ego superior, onde só se validam os melhores sob uma ótica meritocrata, cada um com seus critérios. Melhores em que ou por quê? Sem declinar muito em questões de afinidades, nem no princípio que elimina nossas incompreendidas e belas diferenças como seres individuais, o que realço aqui é a semente da comparação que começa a germinar e ameaçar os diversos parâmetros de raças, culturas, costumes e até objetivos de vida.

Às vezes fazemos isso com nossas crianças, que absorvem sutilmente como é frustrante não ser "o melhor", consolando-se com o cansaço e a sombra de que existirá sempre alguém que as supere, sem saber que o melhor, o mediano, ou o pior está muito além de uma definição simplista de um ou dois intens, sintetizados nesse rótulo.

Voltando a Lennon ou McCartney, como fã dos Beatles, eu seria suspeita a responder essa enquete. Diria que prefiro todos, tanto juntos como individualmente.

Que a busca continue sim, em sermos seres humano melhores. Melhores comparados com nós mesmos e não aos demais. Vejamos que existem melhores simultâneos. Melhores pensando no coletivo. Melhores para fugir da mediocridade e não para cultivar superioridade. Melhores que se superem ao bem. Melhores e capazes de acordar com o pensamento gradativo: como posso ser uma pessoa melhor hoje?

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Nalini Vasconcelos, administradora de sistemas, nerd, artista do vídeo, da música e da poesia, fundadora e blogueira Contextual.

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