Setor energético Brasileiro: crise e mais de um mesmo histórico

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Tem sido cada vez mais inaceitável conviver com as carências do setor brasileiro de energia. A constatação das várias vertentes dessa carência permite ‘gradações’ de insatisfação, algumas vezes em níveis de revolta, dada a diversidade de efeitos e malefícios.

Considerando o setor elétrico, a locomotiva principal da matriz energética brasileira, e apenas se atendo a um desses efeitos perversos, é absolutamente inconcebível ser ‘agraciado’ com um apagão por ano. Pior ainda é a fácil inferência da culpa do estado no processo de falha. Seja pela repetibilidade dos eventos, seja pela débil explicação para a sociedade, é muito óbvia a falha de gestão. E nessa incompetência conjuntural, os danos se espalham sem pudor. Despudorado desmando!

No status atual de crise no setor elétrico, os malefícios ampliam suas forças. Na sua ponta macro, estrangula a economia, restringem investimentos, afeta o emprego e, naturalmente, o bem estar social. Quando a crise trás em sua esteira um aumento do custo da energia, manda a economia direto para a UTI e o emprego para a enfermaria. Na outra ponta, supostamente micro, fere os orçamentos familiares, aumenta suas restrições sociais e limita seu consumo, unindo uma ‘ponta à outra’ no ciclo do retrocesso. E as perspectivas de futuro não animam, considerando a miopia traduzida atrasos em obras estruturantes e subversão de prioridades do estado. Isso sem entrar na discussão das transgressões éticas, tão em evidencia atualmente, mas que seria um tema à parte.

Em uma olhar mais ampliado do problema da energia, além dos aspectos conjunturais, incompetências de governo, ‘reservas de mercado’ no poder político do setor e várias outras mazelas ditas atuais, o que preocupa ainda mais é constatar o quão histórico é o problema. Se os apagões repetem-se anualmente, as crises têm frequência praticamente de décadas, o que dá cores estruturais ao problema e torna a nossa incompetência histórica e bem regular. Uma dimensão suprapartidária e acima de ideologias e políticas econômicas, mas que não diminuem os erros atuais. Apenas os amplia no tempo e os dilui nas matizes políticas.

A falta de uma politica mais rigorosa para eficiência energética, que permitisse redução do consumo de equipamentos do dia-dia, incluindo iluminação; a necessidade de maior eficiência na gestão dos projetos de energia, incluindo a valorização no diálogo com as várias partes afetadas, como universidades, grupos ambientalistas e empresas, principalmente para o carro chefe da geração de energia elétrica; uma política que estimulasse a geração de fontes alternativas de energia, em um país com um ambiente natural tão propício. Dentre outros, esses são alguns exemplos ações estruturantes para as quais o fisiologismo histórico não tem dado a devida prioridade.

Difícil desfilar esse rol de pessimismo, para um tema de impactos tão abrangentes na sociedade, mas cujos elementos são bem reais. O otimismo fica por conta das opções naturais do país para alternativas energéticas, como eólica, solar, bagaço de cana para termelétrica, PCHs e mesmo as hidrelétricas (com melhor racionalização dos seus reservatórios), dentre outras. É preciso animo, até mesmo para não assistir passivo a mais uma crise, cujas alusões infames são inevitáveis: põe a sociedade em choque e economia em eletrocussão. Por hora, não custa juntar coro com o governo e bater tambor para que o clima – grande gestor de energia do país – dê uma força e nos tire da crise. Pelo menos dessa.

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Sandro França é engenheiro, amante de futebol, cidadão incondicionalmente e blogueiro Contextual.

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