O Deus Silêncio


Há muitos anos, um primo distante recém saído da sua adolescência, fez-me perceber como podemos aprender com os que estão ao nosso lado, independentemente de idade, classe social ou nível de instrução, quando afirmou que seu pai sempre lhe repetia que se temos duas orelhas e apenas uma boca já seria um indício da natureza de que devemos ouvir pelo menos o dobro do que falamos. Nunca mais esqueci essa idéia.

Pouco tempo depois, trabalhava num escritório relativamente movimentado e o local que mais me agradava trabalhar era a biblioteca, não sei o porquê, mas bibliotecas e livrarias sempre chamaram minha atenção. Na grande mesa de vidro em que sentava, havia um pedaço de papel colado por baixo com a seguinte frase: “A paz que você procura está no silêncio que você não faz”. Nunca mais esqueci essa frase.

E percebo, cada dia com mais nitidez, como as pessoas falam muito para dizerem pouco ou quase nada. A verborragia diária nos afasta do nosso âmago, do nosso verdadeiro eu, que se esconde cada vez mais dentro de nós, pois não tem espaço para ser ouvido. E só poderemos ouvi-lo quando fizermos silêncio.

Ontem, descobri que o silêncio já foi cultuado desde a Antiguidade pelos egípcios e gregos, cuja figura de (a) Deus (a) do Silêncio é atribuído ora a Ísis, ora a Meretseguer, no caso da mitologia egípcia.

Não fiquei tão surpresa ao saber, numa breve pesquisa que o conhecido adágio inglês “Speech is silver, silence is golden” (Falar é prata, silêncio é ouro) tem sua origem na Antiguidade Egípcia e, portanto, o conhecimento não havia se perdido por completo.

Talvez a avalanche de informações superficiais a que estamos diariamente expostos pela mídia e pelas redes sociais explique a origem dessa verborragia humana, como uma repetição do que lhes acontece diariamente.

Mas, em pleno século XXI, com a prática já difundida da Ioga e da meditação, já passamos do momento da retomada do silêncio interior e, por conseqüência, do exterior.

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Ana Carolina Villa-Flor Galvão é advogada, concurseira (e o que mais a vida mandar), inconformada, observadora do cotidiano e das pessoas e blogueira Contextual.

#AnaCarolinaVillaFlorGalvão

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