O país do futuro, a terra do já teve, o arrocha e a sofrência

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!

O velho lema dos anos setenta foi retomado no início desse milênio sob a forma de “Sou brasileiro e não desisto nunca” ou, na sua versão mais particular e restrita, com o “Orgulho de ser nordestino”, segundo o lema daquela rede supermercadista.

A necessidade de se refundar a história, a partir da ascensão do lulismo ao poder, é uma demonstração plena de força e autoritarismo, tal como as registradas no regime militar. Já na sua primeira comemoração da Independência, em 7 de setembro de 2003, o lulismo prometia o maior festejo cívico já realizado desde 1822, transferindo o desfile para a Esplanada do Ministério e vestindo-lhe com uma roupagem mais pop.

O patriotismo é o último refúgio de um canalha, nas palavras do pensador inglês Samuel Johnson. Eu acrescentaria, ainda, o culto ao folclore e a mesmice que é essa autoproclamação nordestina, cujo debate sempre vai e volta nas redes sociais.

Nosso colaborador Marcelo Brandão já nos trouxe aqui no Contextual um excelente comentário abordando as (des)virtudes de nossa Pátria de Chuteiras, um mero desvio retórico para o ufanismo nacional, encobrindo parte do nosso comportamento egoísta, malandro e mesquinho.

É sabido que o homem é um animal gregário. Para onde apontar uma dificuldade, um obstáculo, um impedimento, estaremos lá nos aboletando, nos amalgamando. E aí reside todo o sortilégio para justificar os nossos fracassos individuais – que é esta ilusão do grupo local –, que se expandirá na sua versão política mais ampla: a pátria.

O folclore, o ufanismo e o patriotismo são, portanto, recursos instrumentais da classe política dominante porque úteis ao convencimento da população de suas necessidades de projetos de poder, quando não de seus intentos de curto prazo. “Ame ou Deixe-o” é nada mais que “não me pegue, não me toque”, na sua tradução mais presepeira.

Nos últimos anos, imperou o sentimento de que éramos uma nação autossuficiente, bem instruída, qualificada e próspera. Sentimento este que perdurou por bom tempo, enquanto foi possível surfar numa bonança mundial, mesmo com anúncio de possíveis ventos na direção contrária.

Como não se deixar contaminar com a esmola sem causar desconfiança à cegueira? Agora, perplexos, não sabemos como lidar com tantos automóveis nas cidades; ou com os atendentes de Call Center com diploma superior que, legitimamente, anseiam por postos mais qualificados; com a dívida dos velhinhos que contraíram empréstimos consignados para viajar pela CVC. Como estancar a escalada geométrica do assistencialismo? Ou, como contornar o rombo da previdência, sempre crescente, sem comprometer os avanços do salário mínimo? Como pagar a conta de luz que alimentou a TV de última geração?

Gozamos o ontem sem preocupação alguma com o amanhã e hoje ansiamos por coisas supostamente simples, sem encontrá-las no horizonte próximo, porque elas atingiram sua obsolescência precoce. Vivemos uma era de autoengano e antecipamos uma nostalgia que nem sequer amadureceu.

A nossa saudade é como uma novela “Vale à Pena Ver de Novo” que, de tão verdejante, ainda nos permite lembrar de cor e salteado cada um dos diálogos. Este é o nosso país. Bem-vindos à terra do já teve. Aqui tudo não passa de arrocha e sofrência, mas com muito orgulho.

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Marcelo Pitombo, blogueiro Contextual, engenheiro por formação, fotógrafo e blogueiro por deformação.

#MarceloPitombo

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