O futebol Brasileiro: Patrimônio ou patrimonialismo nacional?


Ainda cala fundo na alma futebolística brasileira os 7 x 1 sofridos contra a Alemanha, pelas quartas de final da copa de 2014 – a copa no Brasil...a copa ‘do Brasil’. Um duro golpe em um dos maiores orgulhos nacionais. Um patrimônio Brasileiro: O seu futebol. Patrimônio?

Nos acostumamos historicamente em sermos apontados como os melhores. Às vezes de fato, nos cinco títulos mundiais e em outras competições internacionais. Às vezes latente, com títulos de campeão moral, futebol superior ou mesmo supostos injustiçados em competições onde o ‘futebol arte’ deveria ter sido o vencedor. De fato, em competições de seleções nacionais, o Brasil sempre foi um gigante. Sempre atração em copas. Uma natural aparição de talentos e formação de grandes seleções. Um processo de quase geração espontânea de artistas da bola. Dos campos de várzea ao estrelato em competições mundiais; do primeiro brinquedo, a bola, aos grandes clubes do futebol internacional. Talvez com pitadas de elementos étnicos e de cultura nacional que deram aos brasileiros as famosas ‘régua e compasso’ no esporte bretão, carimbando em verde amarelo a história desse esporte no mundo.

Mas essa geração espontânea seria suficiente sustentar esse gigantismo futebolístico brasileiro, em um esporte essencialmente profissional nos grandes centros e cada vez mais de alto rendimento? Essa cultura natural de formação de jogadores bastaria em um dos esportes que mais movimentam negócios no globo e que exige elementos sólidos de gestão e governança das entidades, clubes e afins? A seleção alemã deu uma demonstração do que é organização profissional ao promover um trabalho nacional, desde sua derrocada em casa, na copa de 2006, até o título inconteste em 2014, resultado direto de planejamento, organização, profissionalismo e requisitos científicos. Novos clubes de ponta e a evolução do esporte em países anteriormente não tradicional, pintam um novo cenário do futebol mundial. Japão, China, Ucrânia, EUA, Turquia e os vários clubes fortes destes e dos centros tradicionais da Europa demonstram que o crescimento do futebol profissional exige sólida gestão e que isso também produz talentos. Mais que isso, podem hoje torná-los mais efetivos do que aqueles (talentos) produzidos pelas gerações espontâneas e culturas locais tipicamente ‘boleiras’.

No Brasil, a entidades oficiais do futebol e seus clubes subvertem princípios básicos de gestão e planejamento. Usufruem do patrimônio nacional e o reduz à nociva função Patrimonial – o patrimonialismo no futebol. Esse mesmo patrimonialismo, marca perversa do estado Brasileiro, desde sua formação colonial, caracterizado pela indistinção entre o público e o privado, e que ainda estampa traços fortes na sociedade brasileira atual. Há tempos esse patrimonialismo encontra ‘boa’ guarida na organização do seu futebol, o remetendo às capitanias hereditárias do Brasil colônia. Uma simbiose retrógada e improdutiva entre federação nacional, federações estaduais, ligas amadoras e do interior. Os clubes, nos seus estilos particulares de patrimonialismo, fechados, estanques e em sua maioria desprovidos de modelos de gestão modernos e transparentes. O desrespeito com o estado e a desconexão com seu público de torcedores apaixonadas são elementos comuns do ‘modelo’. Raros são os casos de gestão transparente e profissional. Mecanismo de poder mais democráticos, então, são completamente atípicos. Eleições diretas em clubes, quase surreais.

Com esse modelo dominante de gerir seu futebol, a conta brasileira haveria de chegar. Teria sido a surra alemã o recibo dessa conta? A dura ferida no orgulho nacional teria sido seu preço? Mesmo com a aleatoriedade inerente ao esporte rei futebol, difícil não imaginar que o 7x1 alemão não tenha sido resultado dessa nossa involução.

Pelo menos seria útil que esse duro golpe na copa de 2014 trouxessem lições e que permitisse uma gestão mais profissional e limpa. Por um lado, que promovesse a inclusão pelo esporte, com clubes de diferentes divisões bem geridos, bem representados por associações e federações transparentes e efetivamente esportivas. Por outro, que possibilitasse clubes fortes, competitivos, que pudessem reter seus talentos. Um calendário racional e um ambiente institucional que permitisse modelos de negócio legítimos e estimulantes ao futebol competitivo, sem trair o talento natural do brasileiro. Ao contrário, que o potencializasse.

Seria alentador que o chocolate alemão no patrimônio nacional atingisse ‘a ponta do queixo’ do patrimonial futebol brasileiro e nocauteasse esse modelo ‘de donos’. Continuaria doloroso, mas seria providencial.

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Sandro França é engenheiro, amante de futebol, cidadão incondicionalmente e blogueiro Contextual.

#SandroFrança

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