Um passo à frente, por favor


Alma não é de plástico, nem de alumínio ou de papel. Mas será que dá para reciclar? Seis horas da manhã. Toda manhã é a mesma coisa. O celular grita em cima do criado mudo. Você finge abrir os olhos, mas o celular não percebe. E continua a gritar. Um dedo é tudo o que você precisa para alcançar o silêncio de novo. “Não pensa. Levanta e faz. Se parar para pensar, acaba não fazendo” – você diz a si mesmo. E diz tanto que passa a acreditar que o remédio para aturar o cotidiano é a ausência de pensamento.

Até levantar o corpo sobre a cama desfeita, demora. Até chegar ao banheiro, parece fazer parte de uma cena em slow motion. Até chegar à geladeira e beber água, é como se tivesse todo o tempo do mundo. Depois que a primeira gota do chuveiro toca sua testa, muda-se o ritmo. É como se alguém apertasse o botão de fast forward do controle remoto. E o controle sobre sua vida se esvai como a água molhada de sabão que desce pelo ralo.

Tudo agora é tão rápido que você nem percebe o café sem açúcar, o pão meio duro, o queijo fora da validade, a janela entreaberta, a possibilidade de chuva. É tudo tão veloz, que você só se percebe acordado no trânsito, nervoso com a morosidade do motorista à frente. Tudo é urgente, mas alguns parecem não perceber. Como podem não estar com pressa? E você mete a mão na buzina, o pé no acelerador. Sem pensar. Porque, se pensar, não faz. Corta carros pela direita, não dá passagem nem sinal. Busca sempre a faixa mais livre, o caminho mais curto, a via mais veloz.

Chegando ao trabalho, fila no elevador. Seu pé começa a bater no chão freneticamente. Você olha o relógio 10 vezes por minuto. E não é para ver as horas. É apenas um movimento mecânico. Não dá para evitar. É a pressa e a pressão do escritório no último andar e da reunião importante que está perto de começar. Ao entrar no elevador, você finge ler as notícias inúteis que passam numa pequena tela de computador. Não há tempo para prestar atenção. Ao chegar ao trabalho, enquanto espera o início da reunião, adianta o serviço, toma um café, lê e-mails. Ficar parado é para quem não tem pressa.

Já reparou como todo dia o dia todo é uma correria? Todo mundo parece estar ansioso para chegar em algum lugar. Parece querer dar conta de tudo logo. Para sobrar mais tempo? Para fazer algo que realmente valha a pena? Não é nada disso. Foi a rotina que já tomou conta do seu corpo. E da sua mente. As pessoas correm por correr. E quanto mais correm, menos tempo têm. Mesmo em casa, depois do trabalho, muita gente faz o jantar depressa, come rápido, não consegue ficar parado em um único programa de tevê e zapeia sem parar. Alguns preferem ler um livro, mas engolem letras, pulam palavras, saltam páginas, não entendem nada e vão dormir exaustos, como se tivessem acabado de disputar dez maratonas em sequência.

No dia seguinte, seis da manhã, como sempre, o celular grita no criado mudo, câmera lenta até o chuveiro, correria a partir daí. Mas, e se dessa vez você apertar o botão rewind? E se você esquecer a pressa e parar para pensar? Lembrar de tudo o que você um dia pensou que gostaria de estar fazendo hoje. Dos planos que fez, da sensação gostosa de ficar fazendo nada, curtindo uma música e um baseado enquanto ri da pressa sem sentido da humanidade. Da promessa que você fez de jamais entrar naquela paranoia, de não se deixar levar por aquela correria insana. E se você, ao se lembrar de tudo isso, em frente à sua janela, com os olhos vidrados no horizonte, resolver tirar um dia para pensar na vida? Na correria, no ponto de chegada, que normalmente é o mesmo ponto de partida, no vazio que não se preenche, mesmo com a tarefa cumprida. E se você se perguntar onde deseja chegar com tamanha velocidade? Provavelmente vai descobrir que corre porque não sabe onde chegar. E que a alma não é de plástico, de alumínio ou de papel, mas, de tempos em tempos, precisa ser reciclada. Você vai substituir a pressa pela vontade de chegar a algum lugar. Mas que lugar? É aí que você perde a pressa, ganha uma dúvida e passa a ter uma certeza: a de que depois de perder tanto tempo correndo, finalmente chegou a hora de dar um passo à frente.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever

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