A infelicidade escondida no retroísmo exacerbado


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Tudo agora é retrô. Do óculos à geladeira. Da música à roupa.

O movimento ciclico da moda é natural e é bastante saudável, afinal os recursos são finitos e é mais fácil resgatar do que reinventar.

Moda retrô? Tudo bem. Mas o apego psicológico exclusivo ao passado enseja uma infelicidade mal resolvida.

No ramo da tecnologia, pessoas rejeitam o avanço, por ser mais confortável criticar o invento do que aprender a mexer nele.

Nas relações pessoais, indivíduos enaltecem o passado porque são infelizes com o presente. Narrar um passado de glória massageia mais o ego do que inventar um presente que não existe. É mais difícil mentir sobre algo que está à frente de todos do que sobre algo que já passou.

Como é natural bloquearmos as lembranças traumáticas, o que fica do passado são, em sua maioria, os fatos bons. E mentimos, consciente ou inconscientemente sobre eles, buscando uma zona de conforto na forjada glória da autoestima.

E isso de apego ao passado de uma glória falseada esconde um comportamento altamente destrutivo: o de desistir de buscar a felicidade. Se as lembranças boas, de alguma forma, saciam a ânsia por momentos felizes, viver perde totalmente o sentido.

O ser humano precisa de algo para perseguir, ainda que não seja um projeto ambicioso, mas algo que represente sua evolução. E se essa ânsia é podada pelas mentiras do passado, o que se vê é um indivíduo amargo, excessivamente crítico e intolerante com a felicidade alheia.

O retrô psicológico é mais perigoso e autodestrutivo do que pensamos.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão, blogueiro Contextual.

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