Líbia – A Debandada...

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Lembro de ter visto, na minha adolescência, uma chamada no Jornal da Globo em que um homem vestindo roupas esquisitas, bem diferentes das nossas, cumprimentava o então premier italiano numa visita de Estado. Não o conhecia, mas era Muammar al-Gaddafi.

Passados alguns anos, estava há apenas 4 meses trabalhando na construtora Andrade Gutierrez após 15 anos no mercado financeiro quando surgiu o convite para ir trabalhar na Líbia, após um colega saber que eu falava árabe e que a empresa havia fechado um contrato recente lá.

Me aventurei então em solo líbio, que vivia sob regime ditatorial há mais de 40 anos. Cheguei em março de 2010 e permaneci até 24 de fevereiro 2011, o dia mais tenso de minha vida.

Ao chegar, logo senti o impacto das diferenças: trata-se de um país em que 97% professa a religião muçulmana e sua vasta maioria é sunita; na comida predominavam carne de carneiro e pratos italianos (nada da comida dos países árabes do Oriente Médio, pois é um país árabe africano); na educação, um abismo cultural; na estrutura, uma tremenda falta de infraestrutura aliada a uma excelente oportunidade para empresas estrangeiras, com a abertura econômica do país há apenas 5 anos e com condições financeiras vindas do petróleo e gás, mesmo com os desvios de seu ditador.

Convivi com líbios e portugueses da nossa equipe, tunisianos, egípcios, sudaneses, italianos, malteses, espanhóis, portugueses, alemães, franceses. O mundo voltava-se para lá, petróleo em abundância de excelente qualidade ao lado da Europa.

Passados 11 meses, tudo corria bem. Eu já estava mais adaptado ao trabalho, novos amigos, tênis uma vez por semana, praia no verão (só para homens, claro), jogos num campo de golfe (de areia e com camelos na paisagem). Mas nunca me adaptei a trabalhar aos domingos, pois era o primeiro dia útil da semana no calendário muçulmano, então tinha a sensação de sempre trabalhar no fim de semana (exatamente a minha sensação de agora, pois estou na Argélia, e hoje é domingo).

Era início de fevereiro, e já tinha estourado a Primavera Árabe na Tunísia e no Egito. Acompanhávamos tudo pela televisão internacional, pois as redes locais não transmitiam os acontecimentos.

Àquela altura já não tínhamos mais comunicação estável via celular. Organismos públicos fechados, lojas fechadas, bancos fechados. Já não nos recomendavam andar de carro: apenas para ir e voltar entre casa e trabalho.

Todos os americanos já tinham saído há 2 semanas secretamente. Outros países se mexiam para retirar seus cidadãos, enquanto o embaixador brasileiro promoveu uma reunião com os representantes das empresas brasileiras para informar que estava tudo sob controle e nada aconteceria.

Sem outras notícias, fomos à casa do embaixador, que apenas na 3ª tentativa nos recebeu. Ele mais uma vez tentou nos tranqüilizar de que nada aconteceria. Porém, naquele dia, Portugal enviara um avião da Força Aérea para resgatar seus cidadãos, e o filho de Muammar al-Gaddafi, Saif al-Islam Gaddafi, havia feito um discurso em que concluía que não pouparia sangue dos que fossem contra o governo.

A prometida ajuda do governo brasileiro não veio, e voltamos a ver o embaixador somente no dia 21, já no aeroporto. Ele nos abraçou e disse ‘Que bom que vocês conseguiram ...’ . Naquele momento, pensava que houvessem sido irresponsáveis. Posteriormente, já no Brasil, soube que o governo brasileiro não quis tomar partido, pois o governo Gaddafi gostava do ex-presidente Lula e financiara com uma boa quantia as suas campanhas.

Dia 22 consegui sacar dinheiro no único banco privado para pagar os salários antes de partir. Só estavam no banco meia dúzia de funcionários e o proprietário, que só nos atendeu depois de estar ciente – pelo nosso nome - de sermos católicos. Sendo libanês, eu podia ser cristão ou mulçumano. Se muçulmano, poderia ser sunita ou xiita, e aí residia o problema fatal: caso fosse xiita, ele não me atenderia, quiçá eu sairia do banco vivo! O católico árabe acaba por ser um coringa para estes países árabes.

Até hoje, muitos não sabem como os últimos 5 expatriados que lá ficaram até o fim conseguiram salvara a vida de 186 vietnamitas (nosso operários na obra). Se ficasse um para trás, não creio que sobreviveria...

A sensação na chegada do aeroporto foi péssima: um monte de carros abandonados e amontoados no pátio de estacionamento, muito lixo, malas abandonadas. O cheiro era no mínimo esquisito. Os sonidos eram estridentes e variados: pessoas gritando, apanhando e o vento frio rasgando a pele completavam a cena do caos.

Uma multidão na frente do aeroporto, lá dormindo há três dias, muitos egípcios e tunisianos, trabalhadores informais, tentando invadir o terminal, na esperança que seus governos, já em colapso nos seus próprios territórios, enviassem aviões para retirá-los.

Tivemos que negociar nossa saída. O pedido inicial foi de 100 dólares por cabeça.

Só nos foi permitido fazer o check in dos vietnamitas fora do aeroporto, que foram entrando no terminal em pequenos grupos, num processo cansativo e arriscado, pois no meio da multidão turbada era fácil alguém ficar perdido.

Neste ínterim houve uma invasão de pessoas na área de check in (quando decidimos não esperar mais e despachar nossas malas que queríamos ter deixado por último) e, fora do aeroporto, policiais foram atingidos por uma chuva de pedras.

Ufa, finalmente, faltava passar na aduana, carimbar os passaportes, e partir...

A última tensão foi achar o motorista do ônibus para nos levar ao nosso avião, pois já tinha estourado o tempo de permanência da aeronave em solo - que era de 6 horas. Nós havíamos chegado ao aeroporto às 7 horas da manhã e, às 16:30 horas, finalmente o avião decola... A sensação foi única: alívio, alegria, conforto, íamos para casa... Levando conosco TODOS os nossos operários! Valeu a experiência que a vida me ofereceu e alegria de apertar o coração de que mandamos para casa 186 seres humanos sãos e salvos.

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Eduardo Chaalan Bitar, correspondente Contextual, hoje passa uma temporada a trabalho na Argélia. Vive criticando o mundo corporativo, mas nele ele ainda vive; no Brasil é conhecido como libanês, no Líbano é chamado de o brasileiro, um dia ainda ele se acha (literalmente) e se liberta...

#EduardoChaalanBitar #ContextualnoMundo

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