Bote a mão na cabeça que vai começar ou L’age de la Souffrance


Em minha publicação anterior aqui no Contextual, abordei uma questão de nostalgia da modernidade, discorrendo sobre uma saudade de tudo o que ainda não vimos, ou vimos de modo efêmero. Falei do sentimento patriótico residente na raiz de nossa “souffrance” que, no estado da arte, modularia o mal estar em nossa civilização.

Não abordei a hipótese de modo direto, é um fato, mas tencionei fazê-lo sem incorrer numa crítica lateral ao tratado de Freud, ao menos reservadamente.

Fiquei em dívida com a nobre audiência, cujo débito pretendo saldar nas próximas mal traçadas linhas. Para tanto, empregarei um fluxo de consciência desconexo e confuso, típicos do pensamento filosófico raso e deformado deste escriba.

A idade do sofrimento é um rito de passagem. Não o digo baseado em tratados de Gestalt Terapia ou Psicanálise. Falo por experiência própria, a partir de diálogos com meus próprios macaquinhos (e o Menino Maluquinho tem macaquinhos na cabeça).

Antes da desembocadura da sofrência no espírito de nosso tempo – nosso Zeitgeist –, todo um movimento social, cultural e político já havia esgotado as formas existentes de virtude. Sim, o sonho que sonharíamos juntos tomou ares de um pesadelo individual, em razão dessa cultura da devastação pela alegria, como definiu o Luiz Felipe Pondé (o falso baiano).

Na verdade, diria, ela é propriamente uma cultura da presepada, à semelhança desses gritinhos de “Bora Baêa” que Claudinha Leitte emite em todo e qualquer contexto, sem a menor e absoluta necessidade. A sofrência não nasceu em Candeias, no brega de Caroba. Ela nasceu a partir da necessidade de reconhecimento, de nossa fome por autoafirmação. De um dia para o outro descobrimos que não há razão para o sorriso fácil, para venerarmos Pollyanas.

É simples assim. Um anjo torto desce à Terra e nos diz: “- Muito riso, pouco siso!”. E já estamos nos agarrando a Pablo e Tayrone Cigano, com uma garrafa de Cortezano em uma das mãos e um Plaza a retalho na outra.

A sofrência é um estado de desolamento da alma. Ela nos acomete quando tudo está perdido e, paradoxalmente, também existe uma saída. Em geral, ela ressurge às segundas-feiras pela manhã, nos instantes que sobrevém à ressaca. Isto porque levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima é tudo que nos resta, além desta fama de corno que não passa.

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Marcelo Pitombo, blogueiro Contextual, engenheiro por formação, fotógrafo e blogueiro por deformação.

#MarceloPitombo

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