Colecionador de Janelas

Ela vinha determinada. Quase destemida. Caminhava concentrada. Visivelmente indignada. Vistas em riste, sobrancelhas curvadas. Pupilas rasgadas. Menina dos olhos estressada. Que tremia, sambava. De um lado a outro. Ela estava aguda. Parecia ser grave. Mas de repente, em um piscar de olhos, tudo mudou.

A primeira coisa que olho quando vejo uma pessoa são seus olhos. Guardo olhares. De todo tipo. Tristes, esperançosos, ávidos, concentrados, distraídos, destruídos, inspirados. Em todas as cores, tamanhos e formatos. Nus ou envidraçados. Secos ou molhados. Límpidos ou embaçados. Em pares ou separados. Sonolentos ou arregalados. Encarando ou olhando para baixo. Até quando estão fechados, olhos são bons de serem admirados.

Dizem que são as janelas da alma. Não saberia dizer. Não teria como afirmar. Até que pode ser. Mas não precisa acreditar. O fato é que ao encarar um olhar, alguns sentimentos, pensamentos e intentos são revelados. Pelo menos para os mais sensíveis. Seria uma espécie de dom? Uma evolução genética? Um ponto fora da curva? Ou não passa de uma capacidade de toda a raça percebida apenas por aqueles de vista mais apurada?

A verdade é que, seja o que for, seja como for, acontece comigo. A todo instante. Vejo uma pessoa, miro em seus olhos e sei se ela está feliz, decepcionada, cheia de expectativa ou com a confiança abalada, dispersa ou focada, melancólica ou iluminada. E se tenho este “superpoder”, por que desperdiçar? Uso. Muito. Sempre que posso. Em um mundo de whatsapps, twitters e facebooks, está cada vez mais difícil de saber quem é quem de verdade. O contato físico fica em segundo plano e olhar no olho passou a ser uma raridade. Evitando o confronto, o ser humano parece ter encontrado uma nova forma de se perpetuar como espécie. Uma espécie de peneira, véu, escudo. Meios que revelam algo, mas não mostram tudo. Perfeito para quem gosta de viver de aparências. Para quem acha que a embalagem é mais importante que a experiência.

No mundo virtual, todo mundo aparenta ser normal, cordial, legal, um ser ideal. Uma frase entre aspas demonstra minha sabedoria, o link de um artigo diz a todos o quanto sou antenado, a foto com os amigos expõe minha felicidade. Talvez seja por isso que somos tão diferentes na vida real. Digo ao vivo, frente a frente, a olho nu. Não, não se trata de ser desonesto na rede social. É que ao aprender a usar máscaras, vamos deixando de ser autênticos, mesmo em nossos momentos mais íntimos. É como se usássemos óculos escuros em frente ao espelho. Com a janela fechada, não conseguimos mais adentrar nossas almas. E vamos nos tornando aquilo que vemos quando fazemos login em uma dessas páginas.

Por isso gosto tanto do encontro, do tète-à-tète, do olho no olho, sem enfeites. Ali vejo tudo, sei de tudo, entendo tudo. Da gente que fala de festa, mas está de luto. Da pessoa que arrota confiança, mas não está seguro. Daquele que conta histórias incríveis, mas perdeu a crença no futuro.

Ela vinha determinada. Quase destemida. Caminhava concentrada. Visivelmente indignada. Vistas em riste, sobrancelhas curvadas. Pupilas rasgadas. Menina dos olhos estressada. Que tremia, sambava. De um lado a outro. Ela estava aguda. Parecia ser grave. Mas de repente, em um piscar de olhos, tudo mudou. Desviei o olhar. No alvo de sua mira, do outro lado, na esquina, a esperar, um homem. A determinação, a indignação, o estresse. Não havia mais nada daquilo no olhar dela. Tudo agora era carinho, ternura, afeto, doçura. É que quando encontra um amor, as janelas da alma se iluminam e se escancaram. Os gestos se inflamam e se desarmam. Ali não há máscaras ou óculos escuros, redes sociais ou escudos. Um olhar apaixonado não esconde nada. Revela-se por completo. E eu gosto de estar ali, de janelas abertas, colecionando olhares.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

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