Bolo afrodescendente

Quando o politicamente correto beira o ridículo

Há alguns dias atrás fui surpreendido por uma noticia inusitada. Uma padaria gaúcha resolveu trocar o nome da deliciosa torta “nega maluca” para a politicamente correta “bolo afrodescendente”. Pensei que fosse uma brincadeira e que, obviamente, não teríamos chegado à tal ponto. Era notícia verídica!

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O politicamente correto nasceu para tentar resolver, através da linguagem, problemas na sociedade civil. Era a época das conquistas dos Direitos Humanos na década de 60 nos EUA. Negros, imigrantes, mulheres viraram bandeiras de grupos de defesas dos direitos civis e encabeçaram uma extensa lista de novos modos de tratamento” de pessoas e situações.”

O que mais impressiona é a conotação que isso tem tomado nos nossos dias. É como se a chatice dominasse a cena atual com ares de protagonista. Esses casos ficam mais explícitos com a nossa gurizada.

O programa “Os Trapalhões” era um dominical para a todas as faixas etárias e tenho a plena certeza que hoje ele não duraria um mês. Personagens como Didi (um cearense esperto e que levava vantagem em cima de todo mundo) e Mussum (um negro pinguço e muitas vezes chamado de macaco) estariam aniquilados pela seleção dos atuais diretores de programação. Quer mais exemplos?

Tom e Jerry era uma pancadaria só, com Jerry (rato) sempre levando a melhor.

Patolino e Gaguinho. Um pato nervoso e um porco, pasmem, gago.

Piu Piu e Frajola trazia a mais perversa vontade de um gato em comer o passarinho.

As cantigas antigas de criança hoje têm versões diferentes. A musica Atirei o pau no gato, virou Não atire o pau no gato (to) (to), porque isso (sso) (sso) não se faz (faz-faz)”. Boi da cara preta seria hoje uma ode à Freddy Krueger, famoso personagem do filme A hora do espanto. O cravo e a rosa seria um drama muito intenso capaz de influenciar nas emoções dos pimpolhos.

É bem verdade que na onda de romper 100% com o politicamente correto, algumas pessoas partem para o extremo. Rafinha Bastos, comediante e apresentador de tv, se envolveu em uma polêmica com a cantora Wanessa Camargo ao afirmar que “comeria ela e o bebê”. Aí não se trata de ser não politicamente correto, e sim, uma piada de mau gosto.

O Charlie Hebdo, jornal satírico francês, flertava com os limites do não politicamente correto. Antes que eu comece a receber pauladas defendendo a liberdade de expressão, entendo que a fronteira desta situação com o desrespeito ao Islã foi ultrapassada, o que obviamente não justifica nenhum ato brutal. Porém, quando se encara o fanatismo religioso, você precisa estar preparado para tudo, inclusive a violência.

Em um país como o Brasil em que o idoso, ou pessoas da melhor idade, são tratadas com descaso e desrespeito, velho é velho. Em um país como o nosso em que o deficiente visual não possui cidades preparadas para que ele possa viver dignamente, cego é cego. Em um país como o nosso em que o deficiente físico não possui requisitos mínimos de acessibilidade nas ruas, aleijado é aleijado.

Em uma sociedade em que diversas famílias disputam entre elas o direito de viver em meio ao tráfico, esgoto e miséria, favela é favela.

Como diria um famoso escritor inglês : O maior inimigo da linguagem clara é a falta de sinceridade”.

E como sempre, chegamos à conclusão de que são os extremos que deturpam as verdadeiras intenções.

E chega desse assunto que está chato pra caral... caramba.

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Renato Gueudeville é empresário, louco por futebol, otimista (até que a última luz se apague), fundador e blogueiro do Contextual.

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