Mentes visionárias

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Um dos assuntos mais intrigantes que envolvem os estudos sobre a mente humana é o da capacidade e vontade que uma minoria de pessoas tem de criar, ao ponto de não conseguir dominar a devastadora inquietude de enxergar para além do seu tempo. Estas pessoas são dotadas do que chamamos de mentes visionárias.

A mente visionaria é uma característica que não está necessariamente atrelada ao sucesso ou ao fracasso do experimento, pois de uma mente visionária podem sair exemplos de invenções sublimes ou reprováveis, que resultam em idolatrada fama, abominável repulsa ou mesmo num simples anônimo fracasso.

A qualidade de ser visionário está apenas em enxergar mais (muito mais) do que os outros enxergam. Está em projetar algo, palpável ou não, para além de uma realidade.

Talvez a própria existência humana estivesse comprometida não fossem as mentes visionárias. Mentes estas que, apesar de garantirem uma exponencial evolução da humanidade, são também capazes de dizimar todo um planeta.

E o ser humano dotado desta característica não pertence necessariamente a um ou outro segmento de atividade, podendo ser atuante em inúmeras áreas, como Leonardo da Vinci que, ainda nos idos de 1.500, era um multi-visionário pintor, escultor, engenheiro, arquiteto, matemático, físico, inventor, poeta, músico e etc.

O visionário também é capaz de desenvolver criações que inicialmente podem ser usadas para o bem e depois para o mal. A Bomba de Fissão Nuclear – mais conhecida como “Bomba Atômica” -, por exemplo, que foi capaz de dizimar cidades inteiras, foi inventada com base numa teoria de Einstein – que inclusive teria se lamentado deste fato – e o seu desenvolvimento foi liderado por um outro visionário, o cientista J. Robert Oppenhemeier, que esperando contribuir para a proteção do seu país, inventou este potente instrumento de destruição em massa (o mais devastador já utilizado até hoje).

Outros tantos visionários, cada um na sua área, também se destacaram por enxergar além do seu tempo e criar algo de muito notável. São eles: Steve Jobs (fundador da Apple), Larry Page (fundador do Google), Ray Kurzweil (inventor e futurista americano), Michael Jackson, Madonna, John Lennon, Elvis Presley, Hitler, Fidel Castro, Jesus Cristo, Ghandy, etc. Todos, com mais ou menos fama, mais ou menos reconhecimento ou reprovação, são/eram dotados de mentes visionárias.

Não é uma opção. Ter uma mente visionária não depende do caráter e não é uma livre escolha. É algo que se manifesta de dentro para fora. É possuir uma energia que te impulsiona a tentar, a todo momento, dar sentido à própria vida. Sem essa tentativa a vida parece incompleta, pois atormenta o visionário imaginar-se no papel de mero expectador da sua própria realidade.

Mas mente visionária, sozinha, é como uma usina hidroelétrica no meio de um deserto. Os catalisadores da mente visionária são as habilidades que o seu dono tem ou não de pôr em prática as suas ideias.

Visionários não se deslumbram, não se acomodam, não se aquietam, não desistem e, via de regra, não são humildes. Eles têm a exata compreensão das suas possibilidades, e alguns até se perdem nessa conta.

Visionário não gosta de perder tempo, e trabalha de forma incansável para provar que está certo. Como é movido por algo interno, grandioso e impulsionador, somente fortes fatores externos podem abater o comportamento do visionário, como um grave problema de saúde.

Ao visionário somente restam dois caminhos: ou o da “cegueira voluntária”, que o fará travestir-se ser humano comum, juntando-se à grande maioria das pessoas que já passaram e que passarão pelo mundo, cuja única habilidade nata é a de adaptar-se e conformar-se com a realidade que lhes foi posta (e que talvez sejam muito mais felizes por isso) ou de morrer tentando e tentando.

Na verdade, o primeiro tipo de visionário (o que desiste e escolhe o caminho da conformação) nada mais é do que o “visionário placebo”. Aquele que, não obstante ter surtos de criatividade, retorna à casa do conforto, cego pela crença de que cada coisa vai tomar o seu lugar naturalmente, através da ação do universo.

Já o segundo tipo de visionário, o originalmente nato, não obstante poder domar o seu ímpeto modificador da realidade, de forma a possibilitar sua convivência normal com as pessoas, jamais vai desistir. Pois sua criação está dentro de si, implorando para nascer e dar sua parcela de contribuição para mudar o mundo.

E ele não vai parar de tentar, pois esta é a sua sina.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão, blogueiro Contextual.

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