Neymar e Jesus na cruz!


0494C17963BB4B6F9D85A6BC7DA926D7.jpg

Na tarde do último sábado estava em casa, assistindo à final da Champions League (Barça X Juventus), quando, ao final do jogo, Neymar, um dos artilheiros da Liga, apareceu com uma faixa 100% Jesus amarrada na cabeça.

Assisti toda a comemoração do título, como de costume – adoro ver as pessoas irradiando alegria quando conquistam algo. Percebi que a imprensa deu especial atenção a Neymar depois que ele colocou a faixa, principalmente, quando foi ao centro do campo e ajoelhou-se em posição de agradecimento aos céus.

Eis que hoje, segunda-feira, percebo o rebuliço que a faixa de Neymar causou. Pessoas indignadas afirmando que a atitude do jogador lhes ofendeu, que seu intuito era espalhar a sua religião, que ele não deveria ter feito isso posto que a patrocinadora do Barcelona é a Qatar Airways - empresa aérea originária de país homônimo, de vasta maioria muçulmana - ou que ele o fez com intuito unicamente midiático.

Primeiramente, ele apenas colocou o nome de Jesus. Qual a religião dele? Cristão apostólico romano? Evangélico? Espírita kardecista? Nessas e em muitas outras, a figura do Cristo é cultuada como um ser de espiritualidade superior, que pregou o amor incondicional entre os homens, cujas idéias, após 2015 anos, continuam atuais. São atemporais e nenhum outro homem conseguiu invalidar seus ensinamentos.

Ademais, se ele criou um problema com o patrocinador do seu time, isso é uma questão do Barça, Qatar Airways, Neymar, Roberto Carlos e as baleias... É fato que pela delicadeza da situação ele poderia ter consultado o time. Mas imagino que a patrocinadora não esperava que os jogadores se convertessem à religião muçulmana. Com certeza sabem em que terreno está pisando e imagino que, justamente por saber, resolveu dar seu patrocínio.

Se ele fez isso com intuito unicamente midiático, ponto para ele e seu assessor de imprensa que conseguiram uma bela mídia espontânea. Sem ofensas, sem infringir as leis e, do meu ponto de vista (cidadã livre, ocidental, adulta, do sexo feminino e espírita), sem ofender a ninguém.

Morei em Londres um período e fiquei encantada pela sociedade pluralista em que me vi inserida: muçulmanos de turbante trabalhando no setor de imigração no aeroporto de Londres, freiras andando ao lado de muçulmanas com o corpo 100% coberto de preto, punks caminhando ao lado de prostitutas, judeus e árabes falando a mesma língua (literalmente).

Isso me encantou e mexeu comigo de uma maneira tão profunda que até hoje acho a diversidade linda. Quanto mais livre é uma nação, maiores são as variedades de tons de pele, cor da roupa, modo de se portar perante o mundo. Quanto mais livre é um povo, mais colorido e mais cheio de vida! Então, acho que as diferenças devem sempre coexistir, pois isso nos dá um mundo mais rico.

Sempre lutaria pela liberdade de cada um se posicionar. Seja Chico Buarque defendendo o PT, seja o Charlie Hebdo fazendo seus cartuns sobre Maomé, Neymar usando uma faixa de Jesus ou o próprio JC sendo usado como mote para o protesto dos LGBTs na parada gay.

Não acho correto que ele seja crucificado porque colocou uma simples faixa de Jesus na cabeça. Porém, nós julgamos e crucificamos Jesus Cristo porque ele veio na Terra com uma mentalidade evoluída para sua época, pregando o amor incondicional. Então, por qual motivo não julgaríamos um mero jogador de futebol? A verdade é que, após mais de dois mil anos, Ele ainda incomoda...

-

Ana Carolina Villa-Flor Galvão é advogada, concurseira (e o que mais a vida mandar), inconformada, observadora do cotidiano e das pessoas e blogueira Contextual.

#AnaCarolinaVillaFlorGalvão