Ah, cotas para negros? Por quê?

“Afinal, não é a cor da pele que define caráter de ninguém”; “não é a cor da pele que determina a inteligência das pessoas”; “não é a cor da pele que vai tornar a pessoa capaz de acompanhar um curso na universidade”...

Concordaria com todas essas teses – todas muito óbvias - se elas fossem internalizadas pelos donos de escravos e pelos seus representantes políticos que elaboraram as leis do Brasil Colônia. Esses, ao contrário, tomaram justamente a cor da pele também para dizerem que preto não era gente, era um ser rebaixado à condição de semovente (na linguagem dos juristas, o equivalente a bicho irracional), tese fermentada pela oratória sacrossanta da Igreja Católica, que garantiu a raça negra ser desprovida de alma e ainda sentenciou que as religiões de matrizes africanas eram “seitas”.

Disso se conclui que a escravidão não só acorrentou os negros aos pelourinhos. Acorrentou o seu futuro à medida que não ponderou se os filhos e netos de uma raça negra escravizada eram de bom caráter, inteligentes, desejos de seguir uma universidade. Não se perguntou a eles, no dia 14 de maio de 1888, o que eles queriam fazer dos seus futuros. No dia 13, assinava-se a lei Áurea. No dia seguinte, a sentença que os condenava a vagar pelas veredas do porvir indefinido.

“A característica distintiva do racismo brasileiro é que ele não incide sobre a origem racial das pessoas, mas sobre a cor de sua pele”, ensina-nos o inesquecível e branco antropólogo Darcy Ribeiro, em seu “Povo Brasileiro” (Cia das Letras, 1995). Joaquim Nabuco, por sua vez, previu que “a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”, texto musicado pelo mulato franzino Caetano Veloso, em seu “Noites do Norte”, em 2000. Complemento: a escravidão permanece na mendicância, nas favelas capitaneadas pelo tráfico, nas penitenciárias, nos serviços de limpeza – embora haja alguns afros sócios do chamado clube de elite de Salvador ou no Supremo Tribunal Federal, o agora aposentado Joaquim Barbosa. Esses são as cotas de exceção.

Portanto, se o critério que impediu o acesso aos direitos tantos lá atrás foi o da cor da pele/raça; se, de fato, os efeitos dessas barreiras protraem-se até hoje, nada mais lógico que uma medida reparatória, compensatória, indenizatória, seja pautada também no critério racial (óbvio que as cotas devem ter um caráter temporário até que a chamada escola pública de qualidade esteja idealmente restabelecida como já houve no Brasil até antes de 64). Mas enquanto esse modelo de escola não retorna...

Ah, e antes que se diga “mas o conceito de raça não existe”, lembro que esse discurso é bonito e adequado para debates acadêmicos. Na realidade do cotidiano, entretanto, nenhum racista engole seu discurso porque medita: “poxa, é verdade, não vou agredir esse preto, pois me lembrei que raça não existe; só existe a raça humana, somos todos iguais”. De igual modo, nenhum policial truculento deixa de agir como protagonista da mortandade exacerbada da juventude negra e pobre soteropolitana, porque lembra que “raça” não existe. Para esses agressores, preto é sinônimo de “raça desgraçada”, “raça ruim”.

Por fim, registro que essa ideia bonita, mas ordinária de que raça não existe serve como uma boa desculpa para alguns fugirem dessa discussão que nos remonta à nossa ancestral crueldade que fez muitos não poderem acessar a educação básica, nem a universitária. As cotas, portanto, servem como um canal de acesso a uma instância de poder que precisa ter outras vozes, não só as do “macho adulto branco sempre no comando” – como lembra, mais uma vez, Caetano Veloso, em O Estrangeiro. Elas servirão para que outras mentes possam desconstruir falácias brasileiras como a que diz “eu não sou racista, porque meu melhor amigo é um negão lindo que amo”. Poderão servir para possibilitar o acesso aos poderes sociais, ainda tão brancos, inclusive porque, até então, a universidade pública era um clubinho pronto para receber outro tipo de “cotas”, representadas pelas escolas particulares, onde, também, havia poucos negros, tudo por conta do que disse Joaquim Nabuco!

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Léo Mendes, blogueiro Contextual, um sujeito que gosta de palavra como ponte para estar em conexão com pessoas que lhe valham a pena; por isso, optou pelas veredas das Letras, do Direito, do Radialismo e da amizade.

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