Disfunção no baço com um D bem grande pra você

Dia desses, recebi uma ligação de meu filho às 10h da manhã. Eu estava no trabalho. Ele estava quase chorando de tão desesperado. Reclamava que não tinha nada para fazer. Tudo porque esquecera na casa da avó, sua mochila com o i-Pad, o i-Phone, o mini-DS e tudo o mais que ele e os coleguinhas consideram diversão. Sem suas extensões eletrônicas, estava perdido. Depois de pedir calma, dei início a um breve diálogo:

- Ô filho, vá ler um livro então.

- Pai, o livro que eu tô lendo está em sua casa.

- Então vá brincar lá embaixo, jogar bola...

- Tá chovendo, pai!

- Hum, então vá ver televisão.

- Faltou luz.

- Ah, filho, então vá ficar com um pouquinho de tédio, vá.

- Hã?

Para Leminski, o tédio nasceu como subproduto do ócio das classes dominantes no início da civilização industrial. Na época, este interminável sentimento nauseabundo recebeu o nome de spleen, que significa baço em inglês. É que, àquelas eras, para a medicina todo mau humor provinha de algum tipo de disfunção no baço. Durante o século XIX, o slpeen tomou conta da Europa, dando um molho mais que especial ao romantismo, estilo literário que estava no auge. Byron, por exemplo, dizem, sofria de spleen. Era um mal que atingia artistas. Cruz e Souza, poeta brasileiro da época, chegou a escrever:

Ó tédio! Rei da morte! Rei boêmio!

Ó fantasma enfadonho!

És o sol negro, o criador, o gêmeo

Velho irmão do meu sonho!

E o tédio atravessou o século XIX, passou pelo século XX e chegou à minha casa na década de 1980, quando eu vivia a adolescência. Spleen? Não sei. Para mim, tédio era ficar deitado na cama, olhando para o teto. Uma chatice sem tamanho. Vontade absurda de fazer absolutamente nada. E não era algo isolado. Praticamente uma epidemia. Todos os meus amigos reclamavam da tal “disfunção no baço”. Uma geração inteira sofreu do mal do não ter o que fazer. Aquilo fazia tanto sucesso que ganhou até música. De um lado, o Legião Urbana cantava:

Se eu não faço nada, não fico satisfeito

Eu durmo o dia inteiro e aí não é direito

Porque quando escurece, só estou a fim de aprontar.

Tédio com um T bem grande pra você.

Do outro lado, o Biquini Cavadão gritava:

Um dia, a monotonia tomou conta de mim

É o tédio, cortando meus programas

Esperando o meu fim.

O tédio é um negócio chato mesmo. Mas absolutamente necessário. Não ter o que fazer, faz com que você pense, tenha ideias, aprenda a criar opções, soluções, saídas. O tédio sempre me rendeu brincadeiras novas, bons textos, soluções para problemas aparentemente insolucionáveis e algumas ideias bem b(s)acanas para perturbar meus irmãos. Uma geração sem tédio é uma geração sem remédio. Uma pena que a criançada de hoje nem saiba do que se trata. São tantas opções, apetrechos, possibilidades, que sempre tem algo a ser feito. O problema é que de vez em quando chove e falta luz.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

#MárioGarciaJr