Ah, cotas para negros? Para quê? (2)


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"Perguntai aos escravos quem é o "mau"?, e apontarão a personagem que para a moral aristocrática é "bom", isto é, o poderoso, o dominador." (Friedrich Nietzsche)

Decerto que a escravidão foi uma das piores ideias já tidas pela humanidade, bem como incontestável é o fato de que os escravizados sofreram males terríveis, que repercutem até hoje na conjuntura da nossa sociedade.

Ao se mencionar o vocábulo “escravidão”, vem à mente o cenário dos navios negreiros, do período colonial, dos pelourinhos e dos açoites. África. Entretanto, a escravidão nos remete a tempos muito mais distantes. Há estudos que comprovam que o homem escravizou desde a era primitiva. Escravidão por toda Europa, na Índia e na China. Os antigos egípcios construíram as suas imponentes pirâmides com mãos escravas. Na Mesopotâmia já havia escravidão e era chamada de “espólios de guerra”. Os astecas, os incas, os maias, todos utilizavam este cruel sistema. Os índios brasileiros, que foram alvo da escravatura colonial, anteriormente escravizaram os próprios índios brasileiros.

Todos estes povos foram indelevelmente marcados pelo escravagismo. Agora algumas perguntas: devemos reparar, atualmente, os danos causados há tempos? Quais devem ser reparados e quais absorvidos? Os judeus foram expulsos de seus lares e dirigidos à execução e isto também afetou a sociedade naquela região. Devemos despejar alguns lares alemães e doá-los a título de reparação? Em que cota? Sei que a comparação é destoante, mas o que se almeja é suscitar o que devemos fazer com as consequências dos fatos históricos. Seria uma beleza ver a península ibérica devolvendo todo o ouro que nos foi tomado, não?

Os negros são desfavorecidos, minoria nas universidades e maioria nos cárceres. São, as cotas raciais, a solução para alterar este quadro? Não. Este é o atalho para baixarmos o nível de qualidade do nosso corpo discente, que já não é lá dos melhores. De forma alguma estou dizendo que os negros estão naturalmente abaixo da média, mas, se fazemos uma seleção para definir quem merece a vaga universitária ou o cargo público, certamente queremos que os melhores os ocupem, sem distinção da cor da pele.

As cotas raciais não tratam de correção atual para remediar injustiças do passado. Nem sequer se deveria falar de negros quando se falasse em cotas. Se é pra corrigir desigualdades socioeconômicas, criemos a “cota para pobres”, pois estes, sim, são desfavorecidos, sejam negros, indígenas, ciganos ou brancos. O programa federal “bolsa família” já até cuidou de reservar a cota deles sobre o PIB nacional.

A verdade é que dividir o país entre negros e brancos é um dualismo quase que maniqueísta. Já tivemos um negro se destacando no mais alto cargo do Poder Judiciário, assim como já tivemos indígena ocupando cadeira no Legislativo e, para isto, não necessitaram de reservas privilegiadas para, assim, ultrapassar outros mais aptos ao cargo.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou, no último dia 9, resolução que dispõe sobre a reserva aos negros, no âmbito do Poder Judiciário, de vagas oferecidas em concursos públicos para provimento de cargos efetivos e de ingresso na magistratura. Você, negro ou branco, certamente optaria por um juiz mais competente para julgar a sua causa, em vez de arriscar sua causa judicial em prol de uma correção social descabida.

Quando se trata de algo censurável do passado, não há medida reparatória, compensatória ou indenizatória. Há apenas história.

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Robert Andrade. Blogueiro Contextual. Da advocacia um atuante, da engenharia um estudante, da marcenaria um hobista, do mar um surfista e da vida um amante.

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