Abutres, xô!

O abutre é uma espécie de urubu. Alimenta-se da caça que já morreu. Peguei esse nome do filme homônimo “O Abutre” (de Dan Gilroy, 2014) sobre um desempregado que tem sua nova fonte de renda filmando e exibindo acidentes com mortes ou crimes hediondos, da forma mais explícita possível, para vender a um programa de televisão.

Ficção?

Quando vemos pessoas e seus celulares sedentos por imagens chocantes em todo lugar? Uma fome paleolítica, que se repete, evidenciando que o espetáculo da cena mórbida é muito mais importante do que as vítimas, sejam criminosos, famosos ou nada disso. Todos a postos, no plantão da tragédia, em busca do furo de reportagem, da cena mais chocante, para ser o primeiro, o dono, a fonte de qualquer compartilhamento.

Fotos e manchetes descortinando os mortos “vazam” na mídia como córregos.

O sensacionalismo necrófago, às vezes, chega na hora da sua refeição, estampando na face da audiência o convite a esse banquete antropofágico. Para muitos, a náusea já virou prazer e o réquiem do desrespeito mantém-se a tocar tanto para quem já foi, quanto para quem fica.

A morte carnal existe, o mal também existe. O fascínio soturno existe há milênios. E hoje está em filmes, novelas, em ficções e vida real, no cantor, na banda, na atriz, no vizinho, no colega, no amigo, no amigo do amigo. Está na arte, na literatura, na música e nos rituais. A questão permeia o respeito à morte e isso também envolve outras vidas.

Sem o respeito somos abutres que se beneficiam da tragédia alheia.

O exibicionismo vultoso, vampiresco e midiático só quer um minuto de sua atenção e nunca vai te dar um minuto de silêncio.

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Nalini Vasconcelos, administradora de sistemas, nerd, artista do vídeo, da música e da poesia, fundadora e blogueira Contextual.

#NaliniVasconcelos

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