Filhos que vivem sem paixão


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Lanças ensanguentadas voando por entre as pessoas, um forte cheiro de fumaça vindo de troncos de árvores em chamas, familiares que tentam se achar desesperadamente ou ao menos cruzarem os olhares em meio a uma batalha ensurdecedora onde todos gritam desesperados, nobres guerreiros buscando saciar-se com o sangue derramado dos bois... - Dos bois? - Isso mesmo!

A cena acima não é uma cruzada medieval e sim um almoço de Dia das Mães numa churrascaria que serve rodízio.

A família ficou duas horas esperando por uma mesa e mais uma hora degladiando-se com vaquinhas semi-mortas no prato, trocando duas ou três palavras com os parentes no intervalo entre os espetos gritantes "MAMINHA COM ALHO!", que passavam velozes a 3 cm do olho e a 2 cm da camisa branca que o rapaz comprou para usar no domingo comemorativo.

Mas vale a pena empanturrar-se, afinal mãe é mãe e só temos uma! E como é dia especial, tome-lhe uma coca normal por cima do rodízio, que é para desbastar parte da comida que já está saindo pelo esôfago e criar um espaço para a sobremesa.

E as convenções sociais (ou seriam comerciais?) seguem alijando nossa capacidade de refletir sobre o que e por que fazemos.

Pessoas noivam, casam e batizam seus filhos sem a menor reflexão sobre o significado que cada evento possui.

Aliás, pessoas se autodeclaram de uma ou outra religião sem qualquer critério ou mesmo convicção sobre o que se está dizendo (ou mesmo acreditando). É muito mais prático dizer que é católico do que adepto do candomblé ou mesmo ateu (exige muita explicação ou, no mínimo, enseja cara de reprovação).

E resta assim perpetuada mais uma geração de manipulados.

É casamento, Páscoa, Natal. Todo mundo sabe o que tem que fazer em cada data. É data comemorativa; serve para aquecer o comércio.

Os pais foram ensinados sobre o que fazer nessas ocasiões e com os filhos desses pais, nasce mais uma geração de manipulados.

As convenções sociais bem que poderiam limitar-se a uma função saudável que elas têm: a de guiar a conduta das pessoas, de forma que todos convivam no mesmo ambiente, fazendo o que têm vontade de fazer e respeitando o espaço, o direito e, na medida do possível, as expectativas do outro.

Mas não. As convenções sociais têm servido para passar costumes de geração em geração, sem que se faça a menor reflexão sobre cada dogma que nos é empurrado goela abaixo.

Assim, crescem as crianças sabendo o gabarito de tudo na vida. Do que comprar em cada data comemorativa ao que vestir ou mesmo a profissão que devem seguir (as que paguem bem, não importa sua vocação). Só não se ensina o básico: a pensar.

O tio perguntou ao sobrinho - o que você quer ser quando crescer? – músico - respondeu. Mas e de trabalho, vai querer fazer o quê?

É isso, na convenção social arte não é trabalho, viagem é para os EUA, felicidade é casar de branco e almoçar em restaurante no Dia das Mães (e não importa que isso seja mais sofrido até do que o próprio parto!).

Ensinamos que mãe é mãe e que ela vale uma picanha bem ensanguentada, que o Natal vale um presente bem caro, que Dia dos Namorados vale uma fila gigantesca no restaurante e depois outra na porta do motel e que Dia dos Pais vale uma camisa do time de futebol (o time formado por crianças que um dia acreditaram que esporte podia sim ser trabalho - e milionário!) ou mesmo um DVD de Roberto Carlos (que não obstante ter um talento desproporcional à fortuna acumulada, foi esperto e fez sim da música um trabalho. E muito rentável, por sinal).

As gerações perderam e a cada dia perdem mais a capacidade de pensar.

Achamos que deixar pensar é arriscado e, com isso, fazemos do filho mais uma marionete sem senso crítico, que também vai passar adiante esse hábito.

Queremos que ele um simples update do nosso bisavô, mas nos lamentamos quando ele é facilmente influenciado por algo que não nos é conveniente (por um amigo errado, pela TV, etc.).

Manobramos nossos filhos e depois lamentamos quando eles são manobrados. Queremos que eles tenham senso crítico na vida adulta, mas esquecemos de ensiná-los a pensar na infância.

É fato que não precisamos quebrar todos os paradigmas geracionais que nos são passados, pois somente a cada um cabe refletir sobre mudar tudo ou mesmo não mudar nada do que lhe foi ensinado.

E devemos sim ensinar nossos filhos a pensarem sobre o significado de cada costume e a decidirem se querem mesmo ser o mesmo que foram seus pais.

Obviamente, devemos ensinar também que cada decisão, sobretudo a de trilhar por caminhos diferentes, tem consequências também diferentes das que conhecemos. E que eles devem estar prontos para assumirem essas consequências.

Não se trata de assustá-los sobre o novo, mas de alertá-los de que o novo pode ser melhor ou pior e que deve ser encarado se esse for o chamado que vem do nosso coração. Afinal, quem vive sem paixão não vive; sobrevive.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão, blogueiro Contextual.

#RômuloLunelli