Passo a passo

Fazia muito frio. Eu estava zonzo e alucinava. Tinha perdido o senso de direção e já não tinha força pra andar sequer por mais alguns metros. Eram os efeitos do “soroche”, também conhecido como “mal agudo das montanhas”, moléstia advinda da falta de oxigenação no cérebro, típica de regiões mais altas com ar rarefeito.

O ano era 2004. Eu havia me graduado na FGV-SP há pouco tempo e, para celebrar aquele marco de passagem, decidira reunir toda a renda que havia acumulado até então – meros 628 reais – e sair sozinho em viagem com a mochila nas costas por um mês pela América do Sul.

No cronograma, entre as maiores expectativas estavam a escalada de uma montanha chamada Salkantay (6.172 m), no Peru. Para algo assim, se supõe um enorme preparo prévio, um fantástico condicionamento e muito estudo quanto ao que estaria adiante... Mas não foi o que aconteceu. Se, por um lado, faltara planejamento, sentia-me gigante tanto fisicamente, como na audácia. No entanto, passados somente seis dias de minha partida, eu estava ali: perdido e desfalecendo sem forças.

Logo após a breve euforia de atingir o cume, eu havia me perdido de meus amigos alpinistas. Bastara meia hora a partir da saída da zona nevada na montanha para conseguir me perder completamente do restante do grupo. Sozinho, tive de decidir entre seguir junto ao rio formado pelo degelo e uma possibilidade de trilha mata adentro na zona intertropical.

Como os efeitos do “soroche” haviam voltado e chegaram ao ápice, entrei em estado de quase desespero. Que fazer ao dar por si sem forças, perdido e alucinando? Era como me sentia. Parecia surreal. Eu olhava pra mim mesmo e não tinha força pra avançar. Olhava ao redor e aquela sequência de montanhas ligando o chão ao céu parecia sufocar. E o que havia à frente? Até o limite da visão aquela sequência de montanhas grudadas umas às outras parecia se conectar ao horizonte formando um vale infinito no olhar. Não havia chance. Parecia o fim.

Em meio ao surto delirante, comecei a gritar pedindo pra acordar daquilo que bem podia ser só um sonho para, logo após, abrir os olhos e ver o teto de meu quarto... Mas não se tratava de um mero pesadelo: era real! Passei então a gritar, gritar e gritar por ajuda, mas tudo seguia irretocavelmente igual. Aos brados, pedi desesperadamente pela ajuda de Deus. Em resposta, nada além de silêncio.

Passou-se um tempo e o silêncio acabou sendo quebrado pela chegada de um portador, um nativo carregador de barracas e apetrechos. Não sei exatamente de onde ele surgiu, mas ao me aproximar pedindo por ajuda num espanhol balbuciante, tive por resposta de que ele nada podia fazer, além de me permitir segui-lo de perto.

Mas, como o seguir, se eu não tinha forças para caminhar sequer por mais alguns metros?! Aceitei, mesmo sem saber como. A situação em si não inspirava nenhuma possibilidade de sucesso: não podia olhar ao redor, não podia olhar para frente, nem podia olhar a minha própria condição. Tudo parecia contrário.

Instintivamente, acabei concentrando a atenção nas últimas palavras do nativo e passei a me esmerar com todas as forças restantes em simplesmente pisar exatamente no mesmo lugar em que o nativo, alguns metros à frente, pisava. Passo a passo, pegada a pegada, e toda minha energia e atenção ficara concentrada em simplesmente pisar exatamente onde ele pisava. E segui assim cruzando a zona nevada, a intertropical e mata adentro. Nada mais havia, nem mesmo dor, problemas, limitações ou temores. Toda minha concentração, toda minha força estava ali focada na perfeita execução, em pisar exatamente onde aquele carregador pisava.

Um lapso de tempo depois, eu chegava ao acampamento base, me juntando àqueles de quem eu havia me perdido. Sem perceber, haviam se passado cerca de cinco horas e mais de quinze quilômetros. Inexplicavelmente, eu havia conseguido! Estava vivo.

Tanto tempo depois, é engraçado lembrar tudo isso. Por vezes, os problemas e a pressão se avolumam em tal monta que parece impossível resistir. Sentimo-nos incapazes e ao olharmos para todas as direções, nenhuma alternativa parece viável para a superação do que está posto. A sensação beira o desespero.

No entanto, na maioria desses momentos, sabemos a direção que temos de seguir. Ainda assim, sem forças, como avançar? A solução aprendida que me salvou a vida resume-se em concentrar toda a atenção e energia na execução do primeiro passo. Depois, sem intervalos para considerações, mas com as forças e atenção já mobilizadas, focar na execução do próximo passo, pisando só ali, exatamente onde se sabe dever pisar. Depois, o próximo passo. E então, o seguinte. Passo a passo, avançamos. E sem olhar para nada mais.

Se um caso pessoal ou à frente de uma grande organização, concentrar a energia, colocando integralmente os olhos e o coração dos envolvidos na imediata execução do próximo passo, não somente permite que avancemos largas distâncias em momentos de crise, como certamente nos preserva a vida.

Hoje, essa situação me veio à mente, e não sei expressar com exatidão o quão enormemente tudo isso me ajudou. Lembrei da resiliência que descobri haver em mim, da lição que aprendi quanto às minhas metas e planos, e do quão importante para as organizações que lideramos, sobretudo em tempos de crise, é a nossa capacidade de direcionar o foco dos nossos colegas e liderados para a execução dos planos traçados, com atenção na execução, no próximo passo.

Passo a passo. Sempre.

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

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