Enquanto houver amanhã...


No último dezembro, nas vésperas do Natal, vi uma das pessoas mais valiosas da minha vida deitada na cama de uma semi-UTI, após sofrer um AVC isquêmico.

Aqueles dias no hospital causaram-me um tremendo terremoto interno, quando as minhas crenças e bases sólidas sofreram tremores profundos me obrigando a juntar o que restou e reconstruir um novo terreno. 2015 ia começar e teria de ser diferente.

Os dias vividos na semi-UTI me fizeram refletir sobre a vida que estamos vivendo, redimensionar prioridades, celebrar com muita alegria o fato de estarmos vivos, entender por que estávamos passando por aquela situação e, fundamentalmente, o que aquela experiência tão dolorosa poderia nos ensinar. Pois é fato que, quando nos deparamos com o risco iminente da perda de alguém que tanto amamos, todo o resto se torna ínfimo, se torna resto.

Naquela ocasião conversamos sobre o lema que regia a vida dela: "Não deixe para amanhã, o que você pode fazer hoje."

Assim como ela, com certeza, muito de nós vivemos nessa tal modernidade dirigidos por essa premissa, conectados ininterruptamente, bombardeados de informações a todo instante, correndo o tempo todo para cumprir os prazos, resolver os problemas, ticar a interminável lista de afazeres, atender a todas as demandas, sem saber dizer “nãos”.

Se por um lado já é um fenômeno comum a discussão sobre as pessoas que procrastinam, ou seja, adiam ações que precisam ser realizadas e sofrem de angústia e culpa por não terem conseguido cumprir as suas responsabilidades e compromisso, por outro surge, na atualidade, a expressão pré-crastinar, criada por um grupo de pesquisadores da Pennsylvania State University, nos Estados Unidos, e publicada na revista Psychological Science. Pré-crastinadora é aquela pessoa que se apressa para terminar logo uma tarefa imprimindo esforço extra, só para não tê-la mais em mente, mesmo que não seja urgente ou necessário esse esforço, visando livrar-se das famosas pendências. Ou seja, são as pessoas que nunca deixam para amanhã o que se pode fazer hoje.

A questão é se estamos tomando boas decisões. Será mesmo que precisa ser assim? Quem nos impôs esse ritmo? Por que passamos a funcionar desse jeito? Será que não podemos nos reinventar? Será que não podemos andar na contramão dessa cultura da urgência e encontrar o equilíbrio entre o nosso tempo interno e o externo? Será que não conseguimos redimensionar as nossas prioridades e nos dedicar hoje àquilo que realmente precisa ser feito hoje, discernindo do que pode ficar para outro dia? O que de fato nos move? O que queremos construir? Aonde queremos chegar? Será que o nosso tempo está sendo vivido com coisas que nos permitem estarmos conectados com a nossa alma, corpo e mente?

Após a melhora e alta dela, eu AGRADECI. Agradeci pela sua recuperação. Agradeci por ela ter saído daquele quadro sem nenhuma sequela. Agradeci pelos insights que tive com aquela experiência. Agradeci pela família que temos e pelos amigos que nos cercam e que foram mais uma vez tão presentes. Agradeci muito. Mas agradeci, verdadeiramente, por ela ainda desfrutar de um AMANHÃ e poder deixar coisas para depois.

E, mais uma vez, constatei que a vida que levamos é fruto das escolhas que fazemos. E quando vivemos no piloto automático, freneticamente, sem refletirmos sobre as nossas reais necessidades e prioridades, a vida, às vezes, se encarrega de nos enviar um alerta, ou a nossa alma clama por esse grito de BASTA!

O pior mesmo é quando esse alerta não chega e, então, é tarde demais. Não nos sobrando mais tempo... Não nos restando mais o AMANHÃ... Não nos cabendo mais a oportunidade de nos ressignificarmos!

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Larissa Machado é psicopedagoga e educadora, apaixonada por criança e por tudo que diz respeito à infância e blogueira Contextual.

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