Ninguém é fã de Tiradentes


Celebridade. O que nos torna uma pessoa famosa? Por que tantos desejam sê-la? O que há de mágico nisto?

Não vou propor analisarmos o tema desta forma. Seria muito trivial. Vou focar em algo muito mais importante que é o seguinte: o que estamos tornando célebre?

Moro em Valença, estado da Bahia, e, ao passar por uma rua do humilde bairro do Jacaré, vi um senhor com uma camisa surrada que me surpreendeu ao mostrar uma frase inteligentíssima: “Stop make stupid people famous”. Traduzindo, “Pare de fazer pessoas estúpidas famosas”. Estamos dando notabilidade a figuras desprezíveis; estamos baixando, cada dia mais, o padrão do que desejamos ser; estamos elegendo, como modelo para as nossas crianças, algo que não acrescenta em valor.

Pessoas idolatram péssimos atores apenas pelo fato de serem belos. Idolatram idiotas vazios, como Paris Hilton e Dan Bilzerian, apenas porque têm dinheiro e o ostentam. Mulheres estão se submetendo a cirurgias plásticas para ficarem tal qual Angelina Jolie, porque veem um ícone de beleza e não por verem seus atos humanitários junto aos necessitados da África. Recentemente faleceu um modelo que queria ficar parecido com um boneco de plástico. Até Luiz Fernando da Costa foi alvo de uma fotografia selfie com advogados. Ele é conhecido pela alcunha de Fernandinho Beira-Mar, um traficante condenado, até este momento, a 320 anos de reclusão.

Ninguém é fanático por Jean-Paul Sartre e muito menos por Paulo Freire. Não há idolatria quando se fala de personalidades pensantes, que realmente mudaram nosso cotidiano e, definitivamente, não existem cirurgias plásticas para semelhar o nariz de Fernando Pessoa.

Tiradentes jamais terá um fã clube. Uma grande porção das pessoas não sabe quem ele foi, outra maior ainda não sabe o que é “inconfidência”. Existem até os que não sabem onde o estado de Minas Gerais está.

Fico com as palavras da antropóloga Isabela Oliveira, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp): “O boom de celebridades é um fenômeno da indústria cultural de massa, responsável por eliminar as barreiras entre quem consome e quem produz.”

Notoriedade virou status capitalista. Neymar é famoso porque joga bola, mas não o seria se não vendesse camisas. O mesmo Neymar não dormiu com Carol Portaluppi mas, sim, com a filha de Renato Gaúcho, ou seja, pessoas são simplesmente engolidas ao serem ligadas a uma celebridade.

Beatriz Segall diz: "Não sou celebridade. A palavra celebridade foi deteriorada. Hoje, quinze dias de televisão são suficientes para tornar qualquer menina que está chegando numa celebridade, e claro que não é”. Ou seja, hoje tem celebridade ditando quem é celebridade.

E assim vamos venerando estúpidos e esquecendo os heróis. Não se enganem. O que chamamos de celebridade é o espelho do que somos.

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Robert Andrade. Blogueiro Contextual. Da advocacia um atuante, da engenharia um estudante, da marcenaria um hobista, do mar um surfista e da vida um amante.

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