Um mundo de valores invertidos


CASO 1.

Um taxista comprou um carro novo que, na semana seguinte, apresentou defeito de fábrica.

Inconformado por não conseguir solucionar o problema com a loja onde adquiriu o bem que usa para sustentar sua família, precisou contratar um advogado por 5 mil reais, pagou mais 2 mil de custas processuais e arrendou outro carro por 5 mil mensais para não deixar de trabalhar.

Seu processo foi parar nas mãos de um juiz que ganha 28 mil reais por mês e, após 10 anos, com a ajuda de 9 servidores que ganham entre 7 e 15 mil reais por mês, leu o óbvio na sua sentença: ele tinha razão; a loja tinha que devolver o valor que ele pagou pelo bem ou dar-lhe um novo para que pudesse sustentar sua família (que teve que viver 10 anos não se sabe como).

Na salada de números, a sociedade investiu entre 110 e 190 mil reais para, somente após uma década, reconhecer que o taxista tinha um direito seu que era realmente seu. Ele não ganhou nada de novo, apenas o que não lhe deveria ter sido tirado.

Mas para isso gastou muito dinheiro, moveu estruturas faraônicas que custam uma verdadeira fortuna, viu sua família submetida a privações e, enfim, conseguiu de volta o que já era seu. Nada além disso.

CASO 2.

Um bancário quer divertir-se hoje à noite. Ele pede para um amigo conseguir uma “cortesia” do show de uma banda muito legal, que vai tocar num pub muito legal que ele adora ir.

Ele não quer pagar pelo ingresso de 20 reais, afinal todo mundo, de alguma forma, sempre consegue uma cortesia. Ele acha um absurdo pagar 20 reais num show que pode entrar de graça.

E mesmo que pagasse, não estaria sequer remunerando a banda e sim o dono do bar. Afinal, o gerente do pub negociou com os músicos que ele deixaria a banda tocar lá para “divulgar seu nome”, pois o estabelecimento é muito conhecido e palco de vários shows muito legais. É uma verdadeira “vitrine” para o trabalho de qualquer artista.

Então o bancário pega sua cortesia e vai consumir o produto que buscava: alegria, diversão, paquera, networking com as meninas mais bonitas da cidade e com os outros colegas de profissão, enfim, uma noite muito legal sob todos os pontos de vista!

E não, ele não precisava deste “produto” para viver. Poderia simplesmente assistir a um filme na TV aberta (grátis) e ter ido dormir. Mas não, ele foi muito esperto! Conseguiu economizar 20 reais para consumir um produto não-essencial, realizado por 5 músicos que passaram 5 anos estudando numa universidade e mais 10 na estrada fazendo shows “vitrine”, com seus equipamentos que custam entre 2 e 10 mil reais, que eles usam para levar felicidade às pessoas.

E depois do show o bancário pega 40 reais do bolso e volta para casa de taxi, afinal ele bebeu e não pode dirigir. Um bom investimento, já que gastaria pelo menos 20 reais de gasolina se fosse com o seu carro. Ou seja, só gastou 20 reais para voltar mais seguro e confortável para casa (o mesmo valor que ele poderia ter desembolsado pelo ingresso se não tivesse gasto 15 reais em ligações do seu celular para conseguir a tal cortesia do show).

EM RESUMO.

Essa sensação de que está tudo errado no mundo existe e sempre vai existir enquanto os conflitos e a tristeza forem muito mais valorizados do que a felicidade.

O mundo (governos, pessoas e empresas) gasta muito mais com guerras, conflitos e com burocracia do que com a felicidade e o bem estar do ser humano.

As profissões que lidam com conflitos (advogados, juízes) e doenças (médicos) são muito mais valorizadas do que as levam alegria às pessoas (artistas em geral) ou mesmo que as que entregam aos seus “consumidores” o maior bem que qualquer ser humano pode adquirir: a educação (professores).

Enquanto isso permanecer assim, viveremos sim num mundo de conflitos, de doenças, de tristeza e de falta de educação.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão e blogueiro Contextual.

#RômuloLunelli

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