Na ciranda agridoce dos meus dias


O título deste texto, algo assim à la Casimiro de Abreu, seria mais ou menos o de uma peça teatral que jamais escrevi. E nem escreverei, pois meu talento para a dramaturgia deve ser tão estupendo quanto para... ahn... a culinária molecular. Bem, mas eu também nunca tentei cozinhar assim. Nem assado, nem frito, nem grelhado. Então é certo que jamais saberei nem duma nem doutra.

Mas o papo aqui é sério; vamos nos concentrar. Quero dizer, pra começar, que tenho especial chamego com algumas palavras da nostra língua portuguesa. Canção. Fubeca. Tamanduá (veio da França?). Macambúzio. Oiti. Calçola. Algumas me fazem rir pela mera sonoridade, pela folia indecente de fonemas.

Outras me pegam pela carga semântica, pelo lirismo transbordante e/ou pela porrada que me dão. Sinestesia. Mantra. Enflorar. Agridoce.

A palavra agridoce é a que mais belamente define a vida. São os gostos simultaneamente amaros e suaves que nos tomam a percepção todos os dias, todas as horas. Os mais belos filmes e livros são agridoces. Fellini, Tarkovski e Kusturica falam da guerra mas também do sonho, da infância mas também da dor - tudo misturado pela luminância do gênio. Fundam enclaves maravilhosos em mundos sombrios com a naturalidade de um risochoro de criança.

Tudo o que é agridoce dá uma volta completa na existência. Prefiro a “agridoçura” cotidiana de alguns seres ao ecstasy falso dos estridentes. Ou à lamúria eterna dos choramingas. Ou à distimia crônica dos mal-amados profissionais (por favor, caras-pálidas, odeiem com moderação).

Tudo o que é agridoce não é maniqueísta, não é bipartidarista, não enxerga monoliticamente. Afinal, há sempre uma janela na dor, bem como há sempre um bocado de tristeza na beleza. Não, eu não quis com essas frases figurar na lista dos mais vendidos na categoria “autoajuda”; desculpem aê o mal dito.

Na ciranda agridoce dos meus dias (ufa, justifiquei o título! a professora de redação do colégio vai ficar orgulhosa), vou por aí, tingindo de sorrisos uns funerais. E chorando de saudades de todos os meus amores idos. Em pleno Carnaval.

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Jorge Santiago Junior é da área do Direito, prepara-se para ser professor, não sabe cozinhar mas gostaria muito, é fã de Paulinho da Viola e é, sobretudo, um filho de Gandhy legítimo (dos que saem dentro das cordas do bloco) e blogueiro Contextual.

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