Por um mundo com mais chinelos

Um pé e uma borracha, simples assim. Ou pelo menos pudesse ser, talvez devesse ser. Existe sensação melhor de liberdade?

Chinelo é bom, chinelo é massa, chinelo é porreta; pode ser de pvc, couro, palha, tecido, ou qualquer outro material. Me lembro quando um se partia, e tava lá um prego de prontidão pra ser colocado abaixo dele, prendendo-o, para assim aproveitá-lo ao máximo. Era como se quisesse experimentar a liberdade atemporalmente, sem fim. Incrível!

Poderia simplesmente chamá-lo de sandália, assim conhecido culturalmente em determinadas regiões do Brasil, porém, cairia justamente onde não quero, afinal sandálias para alguns lugares é sinônimo de pessoas civilizadas, já as pessoas do interior de roças, mais pobres, a chamam de chinelo; sendo assim, isso pode separar ainda mais o que eu desejo juntar.

Daria o mundo e meus dois pés para viver de chinelos, mas daria todos os meus chinelos para aqueles que ardem os seus pés diariamente neste planeta quente e apertado, mas não daria, sequer, a borracha para aqueles que enxergam o mundo apenas de cima de suas plataformas duras e saltitantes - guiados por um único viés, amarrados em seus laços, nos quais muitos já viraram nós. Porque sei que muitos dos pés que por aí andam estão no salto e outros tantos estão no asfalto - nem tantos estão livres como eu gostaria, e nem muitos outros estão dispostos a saírem de suas "alturas" e vivenciar a liberdade de pôr seus dedos de fora, pelo menos uma vez.

É disso que falo - por um mundo com mais pessoas de chinelo, para que estas possam enxergar inclusive seus próprios pés, saber e sentir mais onde pisam, porém, talvez nem precisassem pisar se de fato sentissem antes. Pena!

Não só de sapatos o mundo anda, não precisamos tanto desses "toc tocs", precisamos, sim, de mais toques - a vida de chinelos pode ser muito melhor, perceba; cada toque no chão a torna mais leve, mais solta, mais simples, com menos apertos, menos calos, ajudando a eliminar os cadarços que, muitos das vezes, já somos obrigados a apertar.

Chinelos por favor.

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Marcel Freire é casado com a música, amante da publicidade, apaixonado pelo surf e blogueiro Contextual.

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