Manutenção em tempos de asfixia


Seu celular quebrou. Parou de funcionar completamente. Você pede um orçamento na loja licenciada e vê que não vale a pena trocar, pois o preço do conserto é praticamente o de um novo. Melhor comprar um novo mesmo. Quebrou o microondas (mas poderia ser também a geladeira ou a televisão). Recorremos às lojas autorizadas para solicitar o orçamento e mais uma vez constatamos que não sai em conta fazer o reparo. Melhor comprar um novo. A chance do aparelho novo quebrar é menor, vai vir na garantia e ainda temos o prazer de consumir, o deguste de gastar.

Mas, antes de deixar de funcionar foi dado algum tipo de manutenção? E, mais importante, depois que quebrou, houve o desejo real de se fazer a manutenção permanecendo com algo consertado mesmo depois de quebrado?

Não creio que tenhamos como hábito a prática da manutenção. De permanecer com algo depois de certos reparos. E talvez deslocamos essa conduta também para os relacionamentos de qualquer natureza. Para evitar que se quebre ou que tenha algum defeito é preciso dar manutenção, praticar cuidados, exercer pequenos esforços. Cuidar demanda tempo.

Ora, vivendo nesse caos urbano (e algumas vezes subjetivo-existencial), o fato é que estamos sempre acelerados pela necessidade e eficiência que o mundo do trabalho e do sustento exige. Como achar fôlego para dar manutenção (nas coisas e nas relações) numa dinâmica de vida asfixiante? Nessa atmosfera de vida espetacularizada, a válvula de escape mais cômoda é sempre a troca instantânea. Ninguém quer ver o quê ou quem causou o defeito. Ninguém quer se implicar na culpa. Ninguém quer refletir pra saber (e admitir a possibilidade) que pode ter tido também participação na situação que causou o dano. Queremos soluções. E de preferência soluções imediatas. E pra isso a solução geralmente é se “desfazer do velho” e “adquirir o novo”. Seja através do consumo (para as coisas) ou da conquista afetiva (para as pessoas). Se desfazendo de algo ou se desligando de alguém.

Esse modelo de vida nos ensina que a mínima incapacidade ou falha já denuncia que há em curso um fracasso. Como vivemos na cultura do êxito, do “ser bem sucedido”, se instala aí a política da troca ou do descarte.

Assim como os eletrodomésticos e instrumentos, nossos relacionamentos também precisam de manutenção. E o que é melhor: não precisa nem solicitar orçamento, pois não custa nada. É sabido que a garantia dos celulares (1 ano), aparelhos eletrodomésticos (2 anos), carros (até 5 anos já tem) vêm na aquisição, na compra. Mas a “garantia” das relações nunca esteve no momento (ou no acordo) quando ela inicia se firmando como tal. Pelo contrário, está na forma como se estabelece a manutenção durante essa jornada. A “garantia” é o tempo em que nos permitimos estar disponíveis para dar manutenção.

Interessante mesmo seria se as pessoas fossem como as empresas de elevador de condomínios. Estão sempre ali, presentes, dando frequente manutenção para evitar qualquer defeito e uma possível quebra do cabo de aço. Uma vez partido, jamais recomposto. Viva a manutenção! E ainda bem que não somos elevadores.

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Danilo Quinto é psicólogo, professor, percussionista, cinéfilo e um monte de outras coisas, além de blogueiro Contextual.

#DaniloQuinto

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