Não tente fazer isso em casa. Ou tente.


Abro os olhos em frente ao espelho e demoro a me reconhecer. Além de um olho fechado de tão inchado e outro roxo, meio troncho, pareço ter uma cicatriz na testa, o nariz sangrando, a boca partida e hematomas no maxilar. Não é exatamente a imagem que se deseja ver, mas diz exatamente quem eu sou.

A ilusão do cabelo perfeito, os traços finos, a boca delineada, o nariz equilibrado, a pele de seda e a cútis perfeita se espatifou com a minha primeira queda. Na primeira decepção que sofri. Não lembro qual foi. Mas sei que doeu. E desde então, passei a demonstrar muito talento para uma vocação incomum: a de quebrar a cara.

Mas não estou reclamando. É apenas uma constatação. Não tem como encarar o espelho todos os dias e não notar. São muitas as marcas. E devo admitir que gosto de cada uma delas. Nada contra quem prefere evitar cicatrizes. Quem acha melhor não arriscar. Quem se sente mais à vontade em levar a vida na tranquilidade, com o freio de mão puxado ou no ponto morto. Mas eu penso diferente.

Não salto de paraquedas. Não pulo de bungee jump. Não escalo montanhas. Não faço rapel. Não voo de asa delta. Nem ando de caiaque em cordilheiras cheias de pedras. O único esporte radical que pratico é viver. E pratico diariamente. Intensamente. Gosto de tentar, experimentar, ir até o fim, testar os limites, seguir a intuição. E sigo correndo. Sem freio. Pé no acelerador. Se não der certo, bato em alta velocidade. Quebro a cara. Mesmo. E dói. Mas eu não ligo. Porque às vezes não aparece porta nem parede pela frente. E quando isso acontece, a sensação de chegar lá é a melhor do mundo.

Aí eu te pergunto: será que vale a pena não buscar o sucesso por medo do fracasso? Para mim vale o risco. O risco, as mossas, o talho e os hematomas. Vale até o fracasso. Porque sempre fica o aprendizado. Dor passa. Ferida cicatriza. Osso cola, calcifica. E a gente sempre volta mais forte. Já o prazer de se chegar onde se deseja é um sabor que gruda na gente para sempre.

É claro que essa postura quase kamikaze não serve para tudo. Existem situações em que é necessário colocar o pé no freio. Pensar. Analisar. Somar prós e contras. Mas para alguns assuntos, seguir a intuição é fundamental. Sair do lugar comum ou, para usar um termo da moda, da zona de conforto pode ser inspirador. Tente fazer isso em casa. Ou não.

Abro os olhos em frente ao espelho e demoro a me reconhecer. Além de um olho fechado de tão inchado e outro roxo, meio troncho, pareço ter uma cicatriz na testa, o nariz sangrando, a boca partida e hematomas no maxilar. A voz de Cazuza ecoa da sala:

Oh! Baby não chore

Foi apenas um corte

A vida é bem mais perigosa que a morte

Suporte oh, baby suporte

Suporte baby, baby suporte.

De repente percebo no canto do espelho, atrás de mim, a luz que vem do meu quarto, vazando pela fresta da porta entreaberta. É quando sinto que estou pronto para mais uma. Afinal, depois de uma experiência mal sucedida, você pode até quebrar a cara, mas jamais engessar o espírito.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

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