O poder do método

Uma tradição bastante antiga em Oxford são os campeonatos de prova cega de vinhos, nos quais há diversas mesas e sobre elas ficam duas garrafas com rótulos cobertos. Cada indivíduo os prova e anota qual seria o tipo da uva e a sua origem: francesa ou não.

Era minha primeira semana em Oxford, ainda sob os efeitos do deslumbramento da conquista de um antigo sonho quanto a estar ali, e era óbvio que eu aceitaria o convite para tomar parte numa competição, fosse qual fosse, ainda que sem chance alguma. Tratava-se de uma questão de pertencimento.

Acabara a aula e fomos todos avisados do tradicional campeonato. Chegando à sala onde ocorreria o evento, vi uma lista grande de nomes de vinhos, e percebi que havia um padrão de paridade simples e bem definido: por que não subverter a lógica e concorrer ali com outras armas além dos sentidos? Na universidade por onde passaram tantos ganhadores do Nobel e gênios da ciência, resolvi conceber um método próprio, usando a lógica aliada à observação.

O clima dividia-se entre os que bebiam pelo prazer de inebriarem-se e aqueles que estavam levando tudo muitíssimo a sério. Sabia que havia muitos enófilos ali. Era enorme o contraste.

A sobriedade e a vontade de surpreender eram meus únicos aliados. Ao observar o ambiente, percebi que havia um conjunto tão grande de evidências para a identificação de cada vinho, que a possibilidade de provar diretamente cada vinho poderia ser descartada, se quisesse. Sem falar em buquê, textura e coloração...

Há algum tempo havia lido sobre distinções mínimas quanto à cor e sabor de algumas uvas e, ao lembrar-me da lista dos vinhos à porta e do claro padrão ali, percebi que ao identificá-la, necessariamente, eu estaria identificando seu par. Por exemplo: havia somente dois brancos suaves com funções harmônicas semelhantes: o riesling e o chardonnay. Se eu identificasse um, imediatamente teria identificado o outro, sem sequer a necessidade de provar o segundo. Restaria assim somente definir o de origem francesa e qual o de outra parte do mundo. Evitar provar ao máximo possível seria crítico, reduzindo assim qualquer possibilidade de influência do álcool na capacidade de raciocínio. Se perdesse isso, teria perdido tudo.

Para o caso específico, eu me recordara de alguns livros que mencionavam que os vinhos chardonnay tinham uma característica notoriamente menos apreciada: ser menos aromático. Comparar o buquê do chardonnay e do riesling e sentir qual o de aroma mais adocicado seria tarefa fácil naquele início. Mas como distinguir qual das garrafas em cada estação seriam a francesa e qual a originária de outra parte do mundo?

Para distinguir qual a origem das garrafas, lembrei-me que, apesar da cortiça ser um material fadado à extinção, os franceses a veneram. Mais que uma função estética de obstrução, a escolha do tipo de rolha, tratamento e inscrição tem relação direta com o vinho e com o orgulho dos produtores. Assim, uma vez identificada na boca da garrafa a espiral de rosca, estava identificado o não-francês e, por exclusão, o francês.

Foram critérios assim: simples e minimamente fundamentados. Um a um, fui avançando nas estações, até chegar à estação final. Ali, haviam apenas duas garrafas: uma com champagne e uma com um espumante. Nada de um congênere específico. Desnecessário. Mas que critério adotar ali? Como diferenciar àquela altura uma bebida em geral tão inespecífica e dizer qual o francês e qual o não francês? O senso comum apontaria que o de melhor sabor seria sempre o francês... mas seria isso verdade? Precisava haver algo além...

Era evidente que a estação do champagne seria a bebida que todos mais beberiam, além de sobre a mesa ali estar uma variedade grande de queijos. Mas se havia um maior número de pessoas ali e fosse real a possibilidade de as pessoas consumirem mais daquela bebida, o sommelier seguramente poderia ter se descuidado e deixado uma ou outra garrafa muito próxima de nós para rápidas substituições de garrafas vazias.

Ao conceber essa hipótese maluca, dei então um passo atrás em relação à estação e passei a caminhar com os olhos pelo ambiente, procurando por alguma garrafa próxima, no mesmo formato e cor de uma daquelas duas ali. Surpreendentemente, não precisei entortar o pescoço sequer por 90 graus para me deparar com uma garrafa verde absolutamente igual a uma das que estava ali. A um passo e meio de distancia notei então o rótulo: “Produit de France”. Bingo!

Preenchido o último item na cartela do concurso, fui para o salão de jantar. Passados dez minutos, voltei na sala do concurso para pegar minha mochila e avistei, num canto, o sommelier computando os pontos das cartelas, e não resisti à provocação de perguntá-lo se eu já tinha vencido. Ele perguntou o meu nome, seguido por um sorriso bem debochado e me mandou embora. Conclui que meu método não havia tido sucesso...

Voltei para o barulhento jantar em meio ao charmoso serviço à luz de velas, somente interrompido pelos tilintares agudos em uma taça de cristal para o anúncio do vencedor. Entre todos, eu era o único que sabia não ter chance, e quase ignorei o sommelier enquanto ele falava. Ao invés de prestar atenção, preferi continuar a comer, como qualquer típico mau perdedor. Em meio ao distanciamento quanto àquilo tudo ouvi a seguinte frase: “O vencedor deste ano sabe que é o vencedor”. Ao escutar aquilo, entrei em choque. Eu havia ganho!

Ao ser anunciado, alguns quase caíram pra trás! Como um brasileiro poderia ter ganhado?! Era a primeira vez na história que um não europeu ganhava a competição. Meu método agora estava provado e aprovado. E nele não havia nada de mais, além de um pouco de conhecimento geral e observação do ambiente aliados a noções básicas de probabilidade.

Mas não acabara ali. Inconformados com a ideia de um não europeu ganhar pela primeira vez – ainda mais vindo trópicos – alguns colegas me surpreenderam com duas taças de vinhos tintos colocadas de súbito em minha frente e uma frase: “Prove agora que você não teve sorte e nos diga qual o vinho e qual a origem.”

O que fazer agora? Não havia mais garrafas nem fatores ambientais para me direcionar, e uma plateia tão animada quanto hostil. Pretendi, então, alguma indiferença, enquanto ganhava tempo para pensar. Lembrei dos nomes das variedades na lista e pensei na possibilidade de que aquele vinho ali pudesse ser algum dos mais encorpados e comuns, logo, menos consumidos: Merlot ou Carmenére. Merlot é muito mais simples, e muito mais provável de ter sobrado em maior quantidade. Fosse ele, minhas chances seriam maiores, por ser mais comum no Brasil.

Ao provar, arrisquei sem titubear: “É um Merlot!”. Meus colegas gritaram que era óbvio. A pergunta-chave era qual o francês, pois não havia mais nada em que me apoiar. Minha chance era de 50%. Enrolei o máximo possível, e então arrisquei... E estava certo! Inacreditável!

Jamais desmenti o mito que criei ali quanto ao quão apurado meus colegas criam ser meu conhecimento sobre vinhos. Somente permaneci, como ainda hoje, rindo por dentro e me deleitando ao ter provado que é possível competir ainda que se tenham recursos próprios aparentemente inferiores. Nossas limitações, associadas às metas que nos impomos podem revelar alternativas muitas vezes inusitadas, bem como resultados mais que surpreendentes.

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

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