A bestial polaridade, despolitização e esperança... por eles


Não precisa de muito esforço para se perceber o grave momento econômico, político e institucional do país. Mais fácil ainda senti-lo: atinge todos e de várias formas e intensidades sociais e econômicas. É doloroso viver essa conjuntura desastrosa, cujos traços estruturais prolongam seus efeitos e reduzem a esperança de um país melhor. Mas quais são as causas essenciais? O que esperar de cada cidadão? Há esperança? Qual o sentido dessa esperança?

Há tempos que se observa a evolução de uma prática pretensamente travestida de discussão política, mas que revela uma disputa que permeia, desde as lideranças institucionais até (e principalmente) seus simpatizantes, dentre os cidadãos comuns. Entre coxinhas e petralhas, consolida-se a hegemonia de uma bestial politização e de uma torpe polaridade, sem fazer “cosquinhas” em um modelo institucional falido, do qual não se consegue enxergar, nem de telescópio, alternativas de transformação e novas lideranças.

Não se trata de simplesmente concordar com os “polos” ou deles discordar nessa disputa. É legítima a opção política por quaisquer das partes, assim como a simpatia por modelos econômicos e concepções ideológicas, incluindo boas doses de emoção por suas opções. A paixão por ideias e concepções políticas pode sempre ser um motivador importante para a participação cidadã – aliás, a paixão sempre foi um dos principais motivadores de transformações sociais. Afinal, diversidade é uma premissa essencial para uma sociedade democrática.

O problema é a hegemonia de uma prática destrutiva que alimenta essa disputa no meio social do país – entre seus cidadãos. Busca-se a destruição das referências contrárias para afirmar as razões do “seu lado”, nem que seja na base do dano moral e passional. Desprezam-se e desqualificam-se sem pudor – muito menos senso crítico – as trajetórias de Joaquins Barbosas, Chicos Buarques, Marietas, Moros, Arnaldos Jabor, Jôs Soares e de quem se suspeitar mínima identificação com “as partes”.

Claro que, nesse momento, é muito difícil que esse ‘baba’ tenha o mínimo de equilíbrio, considerando-se que o “polo” do poder vive um início de mandato natimorto de governo e perambula, tal qual um zumbi, em um meio institucional assombroso, buscando perspectivas de futuro e apoiando-se nos velhos fantasmas da política brasileira – alguns vampiros clássicos (Renan, Cunha, vocês gostam de sangue?). Mas ao cantar vitória, o “polo” de oposição não faz muito mais do que consolidar esse tipo débil de participação política e respaldar um modelo institucional estruturalmente fracassado, contribuindo para o país continuar “correndo atrás do rabo”, sem referências e sem lideranças – alô, três poderes, seriam mesmo vocês os três porquinhos?

Inevitável para o cidadão médio, provido de necessidades e conhecimento geral básicos, que perspectivas de uma nação melhor sejam somente lembranças de um país outrora celebrado como o país do futuro. É cada vez mais comum ouvir-se que a saída é o aeroporto...

...mas não seria esse aeroporto perto demais? Talvez uma saída fácil. E o que fazer com os valores, costumes e hábitos de cada indivíduo? Seus cheiros, seus sabores, seus sotaques, seus gingados...suas referências de terra natal, o quê fazer? Dá para desligar “no botão”? Por que não permitir que os filhos da nova geração tenham direito a construir suas referências de nação. Ter direito de viver um país melhor...seu país!

Parece (parece!) ser essencial insistir na luta por um ambiente institucional melhor, ainda que com o desânimo da recente tentativa de homicídio da reforma política no congresso. Não é demais querer regras mais claras para financiamento de campanhas, estruturas partidárias, instituições mais fortes e diligentes, que promovam a reorganização limpa do sistema político brasileiro. Não é demais – é básico! Ainda faltaria muito, mas seriam alguns passos.

Do ponto de vista do cidadão médio, que se mantenham suas opções políticas, ideológicas ou mesmo partidárias, mas que se fortaleçam o senso critico e a responsabilidade individual por uma participação política efetiva, centrados no sentimento de cidadania, diversidade e lisura no trato público. Quer sejam, nas atitudes do dia a dia, nas discussões pessoais, no exercício de cidadania, quer nas microrrelações, mas que representem esforços para regatar o país do buraco em que se encontra. Talvez seja natural, então, a percepção do vazio de lideranças e da necessidade de se politizar se construindo um sistema político decente por um país melhor. Talvez se constate que o modelo histórico e atual está falido.

Que não seja pelos pais dessa geração, mas pelos seus filhos. Não se pode desistir...por eles!

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Sandro França é engenheiro, amante de futebol, cidadão incondicionalmente e blogueiro Contextual.

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