A culpa é das... incertezas

“Respeito a fé, mas é a dúvida que te educa”

Segundo o Wikipedia, a definição para Fé é

“adesão de forma incondicional a uma hipótese à qual a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que se deposita nesta ideia ou fonte de transmissão.”

Vamos começar.

Cresci e estudei grande parte da minha vida em colégio religioso. Sou espírita praticante e escrevo este texto cerca de 2 horas antes de iniciar o “Evangelho no Lar”, hábito saudável que cultivamos às segundas-feiras com os nossos filhos.

Quando eu era pequeno, lá pelos 9 anos de idade, testava a minha fé tentando mudar o clima. Bastava eu olhar firmemente para os céus e pedir para não chover na manhã seguinte que tinha a minha ida à praia garantida. E como funcionava!

Daí, eu cresci e lá fui eu exercitando a minha fé na escola, naquelas provas complicadas. Dava uma rezada forte e garantia um rendimento, digamos, satisfatório. Disse “satisfatório” e não uma “Brastemp”.

Depois, eu cresci mais ainda e tive filhos. E uso minha fé para que eles possam melhorar rapidamente de uma gripe, de uma febre ou de qualquer outra situação preocupante.

Cresci mais e mais e virei empresário. Aí, amigo, haja fé!!

Continuo exercitando a minha fé, torcendo por um país melhor, com governantes comprometidos , por boas vendas e bons resultados na minha empresa e pelo super-herói da vez.

A fé sem vontade, sem planejamento, trabalho, atenção, foco, firmeza, convicção não traz efeito. Sou daqueles que acreditam em uma força maior do que tudo e todos, à qual chamo Deus. Mas não é justo colocar Nele toda a conta dos gaps das minhas atuações.

Se os nossos filhos derem indícios de que possamos ter problemas com as suas condutas, sejam elas de quaisquer ordens, e não estivermos vigilantes, a fé não resolve.

Se não fizermos nosso papel de cidadãos atuantes e com poder de mudar o que está por aí, a fé não conserta.

Daí que trago para a conversa um composto mágico: a incerteza.

O fato de não se conseguir prever uma situação ou efeito faz com que nós, recomendadamente tenhamos diferentes respostas e novos planos para o inesperado.

A frase do subtítulo (“Respeito a fé, mas é a dúvida que te educa” – Wilson Mizner, dramaturgo americano) nos traz a lucidez implacável dos pragmáticos.

É essa surpreendente senhora, chamada dúvida, que nos faz prever, planejar, simular riscos, proteger e atuar. Ela nos prepara sempre para o pior.

O mercado financeiro tem um jargão interessante para situações adversas em que o decisor tem dúvidas: “Se o barco começou a afundar, pule fora dele!” Ficar nele, somente rezando, vai ajudar na sua passagem para outra vida, na melhor das hipóteses.

Não adianta esperar que a fé resolva o que não se tem atuação.

A fé, sem a sua atuação, é como um corpo humano com o coração, mas sem o cérebro.

A preocupação com o incerto, o imponderável, o imprevisível é motor de desenvolvimento e de evolução humana. As dúvidas e incertezas colocam em xeque os donos das verdades absolutas.

Aprendi que uma pergunta correta é mais poderosa do que uma resposta pronta e, assim, vivo a dúvida como um forte aliado para alicerçar a minha fé.

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Renato Gueudeville é empresário, louco por futebol, otimista (até que a última luz se apague), fundador e blogueiro do Contextual.

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