Não esqueça a minha Caloi!


Quem não se lembra desse famoso slogan da década de 80?

A criançada, alimentada pelo sonho da primeira bicicleta, espalhava bilhetinhos pela casa despertando desejos através de lembretes: “Não Esqueça a Minha Caloi”. Isso foi marcante para mim. Queria muito uma “bike” para me juntar à turma que já pedalava pelas ruas do bairro, indo para a escola e se lançando em aventuras em outras quadras e quarteirões. Eu precisava fazer alguma coisa. Lembro-me de que as minhas estratégias de pôr os bilhetinhos em locais de fácil acesso do velho falhavam bastante, pois a bicicleta nunca chegava. Tentei no Natal, no meu aniversário e no dia das crianças. Deixava os bilhetinhos dentro do sapato, em cima do travesseiro, na mesa do café... E nada! Pensava comigo mesmo: onde estava errando no meu planejamento?

Numa determinada noite fui despertado pela luz da sala acesa e resolvi, de mansinho, verificar o que estava ocorrendo em plena madrugada. Deparei-me com meu pai debruçado sobre vários papéis e uma calculadora. Seu semblante era de preocupação e de tristeza, as olheiras já demostravam o sinal do cansaço, e a insônia virara sua companheira nas longas noites de cálculos e contas. De repente, ele percebe a minha presença e, numa clarividência impressionante, me chama carinhosamente para explicar um pouco de economia e como o sinal de negativo estava influenciando a nossa vida. Naquela madrugada, angustiado e com certa dose de culpa, fui dormir deixando para trás o meu desejo ou a única forma que eu achava que tinha de realizá-lo. Ao longo dos meus treze anos, deparei-me com uma das minhas primeiras grandes frustrações: não teria tão cedo a minha bicicleta e continuaria com o maldito slogan martelando na minha cabeça “Não esqueça a minha Caloi!”.

Resolvi não esquecer. Decidi partir para a luta. Tentei acumular meu capital recorrendo a algumas lavagens de carros dos moradores do prédio, deixando de merendar para juntar o dinheiro e catando cada centavo que encontrava esquecido pela casa, guardando em um velho estojo que, por hora, virara o meu banco. Já tinha quase Cr$ 100,00 (cem cruzeiros), quando surgiu uma grande oportunidade de comprar a bicicleta usada de um amigo da escola. Foi fácil convencê-lo, mas precisei ficar mais um mês sem merendar para comprá-la por Cr$ 160,00 e, finalmente, realizar o meu sonho. A “bike” não era uma Caloi, era uma Monark. Uma linda bicicleta que se encaixava perfeitamente nos meus projetos de sair pelo mundo com meus amigos, desvendar novos lugares e celebrar novas aventuras.

O que aprendi com isso?

Precisamos valorizar as nossas conquistas, lutar pelos nossos desejos, persistir, insistir e ir até o fim, mesmo diante dos diversos obstáculos. Sem perceber, meu valioso pai me ensinou que não desistir faz parte de quem quer alcançar algo.

Não esqueci como conquistei a minha primeira bicicleta, e o Slogan “Não esqueça a minha Caloi !” hoje soa na lembrança de um homem que aprendeu com um menino como conquistar o seu sonho.

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Asttor Cirne é administrador, observador assíduo do cotidiano, amante da música, leitura e literatura, atento a tudo e a todos e blogueiro Contextual.

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