Nasceu a criança


Nasceu a criança! Um choro, uma lágrima, uma sucção leitosa. Um riso involuntário, um berço inevitável, um colo inconfundível. Uma madrugada de novo, um sono a mais, um dia e tanto. Nasceu a criança e depois, como num ar súbito, cresceu a criança. Um brinquedo a mais, uma queda e um joelho ralado. Ainda é só uma criança, mas já tem dezesseis. É sua primeira vez. Cresceu a criança, que já não é tão criança. Perdeu o fio da meada, não fez nada, mas era cilada. Morreu a criança. Nasceu o adulto. Com seus medos, preconceitos e guetos. Condena, antes de julgar, e como julga! Talvez porque saiba que tem culpa. Quem faz e quem não faz. Mais uma vítima, mais um argumento, mais certezas que pensamentos. Não há sentimento. Empatia é quase tormento. O ignorante? O outro. O bandido? O outro. O leviano? O outro. O manipulador? O outro. Errado? Outros. O mundo está perdido. Mas eu me achei. Nasceu Narciso! Uma foto, um diploma, um status. Dinheiro e mais status. Um caminho torto, um sonho esquecido, um futuro brilhante. Carreira, casamento e cale-se. Filhos? Dois, casal de preferência. Ou três, se precisar insistir. Família. O mundo está perdido. Drogas, sexo e a vida dos outros. Felicidade? Talvez. Regras? Muitas. Hipocrisia? Sempre. Não há machismo, racismo ou homofobia. Só ironia. Nasceu o ódio pela vida do outro, pela opinião do outro, pelo outro. Veio a divisão, nós e eles. Mas isso não desata os nós. Os laços estão frouxos, e o adulto está trouxa. Seguiu rumo opaco, oposto e se percebeu na beira do abismo. Precipício, desde o início. Veio o vício. Uma cerveja e um rivotril, em gotas ou em comprimido. Oprimido. Suas escolhas não são suas. Os protestos são dos outros. A vida tem cara de desgosto. O que quer ser quando crescer? Opressor. Em estética e em discurso. Corta os pulsos e se vê em luto. Luta pelo próprio umbigo e só isso. Desde o cordão umbilical. Nada mal. Ainda oprimido, mas com senso de opressor. Sensatez? Perdeu de vez. Não há Freire, Foucault ou Jesus. Tanto faz, isso de cruz. Se tem farinha, o pirão é meu. A cozinha? Bom proveito. É desse jeito. Desde a senzala, o pobre cala. E rala. Na sala ou em qualquer lugar. Alvo de bala. E agora, mata. Tá certo? De jeito nenhum. Pena de morte pra mais um. O medo justifica. E para o resto fora da Bíblia? É pela moral. De hoje ou da era medieval? Nasceu a hipocrisia. Felicidade só a minha. Dos sonhos que não planejei, dos muitos que abandonei, da vida que eu comprei. E foi cara. Vendi a infância, utopia e esperança. Troquei ideologia por uma lancha. E depois, botei a culpa no mundo. Coisa de gente grande. O buraco é mais fundo. E é onde eu me escondo. Boto venda, fone e mordaça. Qualquer empatia, passa. Finjo a grama verde em plena quarta-feira. Faço cera. Vou passando. Nasceu o velho. As rugas, os fios brancos e a nostalgia. No meu tempo era magia. Paradise. Hoje, cachoeira em lágrima inteira. O corpo torto, o sonho morto, de um mundo com sete bilhões de sorrisos. Todos voluntários. Que hilário! Era só ter sido ainda criança.

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Mariana Aragão, médica que prescreve poesia, conta fotografia e captura saúde. Agora, blogueira do Contextual.

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