Prateleiras e compartimentos


Já tenho três semanas tentando escrever esse texto, estacionado no primeiro parágrafo. A inspiração, disciplina ou criatividade deviam estar guardadas ali, em alguma prateleira dessas que a gente deixa dentro de nós "coisas" que gostamos. Ficamos ali “paquerando” ela, mas ainda não estamos “dispostos” pra executá-la.

Pode ser um ato consciente de prorrogar, pois a ação requer uma dedicação de tempo que ainda não temos disponível. Pode ser também um hábito (e nesse caso é mais grave!) de procrastinar, deixar pra depois, jogar pra frente. Há pessoas que funcionam melhor na confusão que a pressão do tempo/prazo exerce.

Veja bem, aí você pode se enrolar todo lá na frente. Funcionar na tríade “protelar-acumular-executar” pode ser arriscado. Ainda assim considero essas pessoas portadoras do dom da procrastinação. Estamos falando de um talento. Trata-se de um equilibrista social que vai administrando as tarefas de seus diversos segmentos e que só consegue ativar o uso da prateleira e dos compartimentos quando se está de frente com esta condição de adiamento. O corpo não está pronto para agir. A mente não está pronta para pensar... ainda! Enquanto isso, algumas distrações e micro-entretenimentos vão decorando o que guardamos nas prateleiras.

Nós não guardamos a “tarefa-atrasada” em si nos compartimentos, mas sim vamos acumulando partículas de vontade/desejo que aquela tarefa vai demandar de nós. É a inspiração espiritual que fica na nossa prateleira subjetiva. O que guardamos nela é a curiosidade da vontade. A vontade tem grande curiosidade para agir e conhecer. Mas essa vontade só virá recheada de outros componentes (delicadeza, serenidade, agressividade, fluidez, intensidade, precisão, praticidade, improviso, imperfeição) se deixarmos a tarefa pra depois.

O fazer imediato impossibilita de florirmos a nossa prateleira. A vontade comete suicídio e nós cometemos um genocídio emocional. Prorrogar é saber preservar em compartimentos as sensações de cada ato prorrogado que, isoladamente, vai dando munição futura, vai se robustecendo das características necessárias que se precisa para, com maestria, concluir o que está para ser feito. Acho que temos variadas prateleiras e compartimentos internos, muito especiais, e que não nos damos conta do quanto eles podem nos fornecer motivação, curiosidade e consistência, desde que não estejam empoeiradas e trancafiadas. Mantemos nossas prateleiras e compartimentos limpos, destrancados e arejados.

Faxina interna já!

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Danilo Quinto é psicólogo, professor, percussionista, cinéfilo e um monte de outras coisas, além de blogueiro Contextual.

#Danilo

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