A um menino


Meu pobre menino...

A ti não caberia, senão pela compaixão, que assim eu te adjetivasse.

Pobre, mesmo, é a natureza humana. Pobre é esta raça que, ora ingênua, ora pretensiosa, vê-se elevada na eloquência de suas permanentes razões, dogmas e motivações políticas. Mas que, de verdade, apenas claudica na travessia de um mar onde desde sempre renegou os astros para seguir estranhas bússolas, e erguer impérios à sua fiel imagem e semelhança.

Eis aonde chega toda essa frenética e obtusa empresa. E já o pudemos saber antes: na beligerante terra-firme do Oriente Médio ou dos Bálcãs, na secura da fome etíope, quantos outros inocentes abatidos...? Agora, é Netuno quem testemunha, impotente, nossos monstruosos desígnios, em seu aquoso e gigante território ao qual tanta gente, século a século, lançou-se rumo ao domínio de outras gentes. Numa pequena fração desse imenso mar azul, vemos, estarrecidos, que o horror perante os céus não foi apagado com a esponja das vagas, como desejou nosso virtuoso Poeta; e que o borrão, sempre germinado em terra, continua vertendo p’ro mar salgado, cujo sal são lágrimas de quem conheceu o Mal.

Pobre corpinho sem vida...

Não posso te estender meus braços, minhas mãos adultas e inúteis.... Muito menos te devolver a doce existência roubada – muito antes de chegares à fúnebre praia. Também já sei não poder contar com as vagas e tufões para varrer a maldita obra histórica dos teus algozes. Só me resta esperar que a imagem do teu absurdo destino faça mais que chocar alguns e entristecer outros. Se não for pela virtude, que não pertence à estatura dos que desenham nosso triste Mundo, que seja por algum constrangimento, ou razão ainda menor, que algo se faça frente aos bestiais fatos que a ti, meu inocente, coube representar. Que a silenciosa e civilizada maldade, ao menos, veja-se obrigada a ceder, a vergar ante a força que há no horror do que fizeram de ti, meu querido menino.

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Cyro Serpa, advogado e analista legislativo, que encontra nas palavras um modo de vivenciar o belo e o feio que o Mundo proporciona e blogueiro Contextual.

#CyroSerpa

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