Concursos públicos: como desagradar petralhas e coxinhas


Quer ser linchado tanto num ambiente de petistas quanto num grupo anti-PT? Diga que achou bom o corte de concursos públicos anunciado pelo governo Dilma. Pelo lado dos petralhas, é inadmissível apoiar uma medida notadamente de direita neoliberal. Já segundo os coxinhas, se foi feito pelo PT, logo, é ruim. E fica nisso. Ninguém se aprofunda na questão, nem tenta entender a origem do problema. Então, antes de sair me xingando de ser “contra os trabalhadores” ou “a favor de cargos comissionados de apadrinhados do PT”, peço que perca cinco minutos do seu tempo e reflita um pouco.

Comecemos pelo micro. Por mim. Eu trabalho na iniciativa privada, sou cobrada por produtividade, tenho metas, e recebo o salário que o mercado paga. Se eu estiver achando ruim, minha opção é pedir demissão, pois não tenho a prerrogativa de poder passar meses de greve e continuar recebendo salário.

Voltando um pouco no tempo, há pouco mais de uma década, passei no vestibular de uma faculdade pública federal, mas só comecei a frequentá-la um semestre depois, porque os amados mestres e outros servidores ficaram quase um ano em greve. Com isso, me formei também com um semestre de atraso, o que significa que demorei um semestre a mais para começar a trabalhar e receber salário. Isso foi há mais de uma década, mas poderia ser hoje, pois como muitos sabem, as Federais estão – novamente – há cerca de 4 meses em greve. Igualzinho. Ninguém foi demitido e os salários continuam a ser pagos religiosamente em dia, salários esses que são bem maiores que os pagos em funções semelhantes na iniciativa privada. Mas vamos chegar lá.

Nos anos que estudei na UFBA, tive alguns professores que, mais do que dar aula, estavam preocupados em transmitir aos alunos suas ideologias e visões pessoais de mundo (geralmente ideias esquerdistas, já que se tratava de uma faculdade de Humanas). Eles podiam falar o que quisessem na sala de aula. Desde como o então governo Lula era legal até sobre a inflação da batata na feira. Eu ia fazer o que? Ir na secretaria reclamar? Não existe fiscalização ou punição pra isso. Ou, se existe, não funciona. Também tinha professor que ia em uma aula e faltava duas. Não havia nenhuma meta de produtividade, mas o salário e os benefícios... esses estavam todo mês na conta.

Depois de um tempo, estagiei num órgão público estadual. E o que vi foi ainda pior. Tinha um concursado que, literalmente, passava o dia bêbado no corredor. Outra concursada ficava umas 4h por dia na sala de ginástica da repartição (sim, tinha uma sala de Pilates muito boa lá, com fisioterapeuta e tudo. Os servidores podiam usá-la duas vezes por semana, por 50 minutos - e claro que ninguém fiscalizava). Tinha ainda uma terceira concursada que usava o computador, a impressora e o tempo em que deveria estar trabalhando para fazer os trabalhos da faculdade. Tudo isso bancado sabe por quem? Por mim, por você. Estou focando nos concursados para mostrar que reclamar só dos comissionados é lugar-comum de quem não quer ficar mal na fita com 11 milhões de servidores, mas claro que entre eles havia também muita gente encostada, igualmente sustentada por nós.

Nesse órgão, menos do que por falha de caráter, esses servidores quase não trabalhavam porque não tinha mesmo muito o que fazer. Só para ilustrar, o mesmo setor que eu cuido hoje sozinha numa empresa privada (com muito mais demanda, diga-se de passagem), era composto por 8 (!!!) funcionários lá: três concursados, dois comissionados e três estagiárias. Ainda que tivesse o mesmo volume de trabalho que tenho no meu atual trabalho (e não é nenhum volume absurdo, bom deixar claro), podemos dizer que, neste caso, o contribuinte estava pagando por oito pessoas para fazer o trabalho de uma. Não é um caso isolado, sabemos disso.

Vamos agora sair do micro e entender o macro? Segundo um levantamento da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), em 2014, cada funcionário público federal custava, em média, R$ 9,5 mil, cerca de CINCO VEZES MAIS que o custo médio de um funcionário privado (que era de R$ 1.977, considerando-se apenas as seis maiores regiões metropolitanas do país, onde os salários são, obviamente, maiores). Agora multiplique isso pelos cerca de 2 milhões de funcionários públicos federais existentes. Se eu não tiver me confundido nas contas, isso dá R$ 19 bilhões por mês, ou se preferir, R$ 228 bilhões por ano. Acha que ainda é preciso fazer concurso? Não consegui confirmar se esses números já incluem os comissionados e se o custo considera também os encargos e benefícios. Se não incluir, a situação é ainda pior.

E como a maioria dos serviços públicos não funciona bem, porque além de caros e inchados, são mal geridos, acabamos tendo que apelar para as empresas privadas (onde as coisas fluem melhor) e pagando a mesma conta duas vezes. Se você pudesse pagar apenas uma vez, escolheria o serviço público ou o privado? A saúde pública ou a privada? A educação pública ou a privada? O cartório público ou o privado? Escolha fácil, né? Só que você não pode deixar de pagar pelo serviço público, porque mesmo que não funcione, a folha de pagamento tem um custo altíssimo, e esse custo seria bancado por quem mais, senão você?

E se essas 2 milhões de pessoas - a maioria mentes brilhantes, já que passar num concurso federal não é para qualquer um – estivesse no setor privado, empreendendo, inovando, exportando, criando novas tecnologias e gerando riquezas para o país? Será que não seria muito melhor para o país? Mas quem tem condições de passar num bom concurso, e garantir estabilidade para o resto da vida, vai preferir arriscar suas economias abrindo um negócio? Pra quê? Pra passar raiva com a burocracia, pagar meio mundo de imposto, ficar suscetível à instabilidade da economia e, se crescer muito, ainda ser chamado de explorador?

Voltando ao cenário do corte de concursos pela presidente (em quem nunca votei e tenho enormes ressalvas), já que ela promete também o corte de pelo menos 10 ministérios, e esses ministérios devem ter um sem-número de servidores concursados que não poderão ser demitidos, vamos brincar de remanejar esse pessoal?

E tem mais. Num momento em que todas as empresas privadas estão demitindo e aprendendo a se virar com menos funcionários, não vejo porque só o estado, que é bancado pela altíssima carga tributária que recai sobre nós, tem que continuar contratando e ainda aumentando salário em 75%, como querem alguns servidores. Temos que ter em mente que o governo não produz nada. Quando ele precisa de dinheiro, inventa um novo imposto para a gente pagar. Então vamos parar de exigir tantas benesses do estado. Quem financia isso somos nós mesmos. Só que pelo triplo do preço.

Por hoje é isso. Na próxima irei ensinar a desagradar petralhas e coxinhas defendendo que a aposentadoria e o conceito de idoso seja postergado em, pelo menos, 5 anos. Até mais!

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Priscila Chammas é jornalista, incompreendida, criadora involuntária de polêmica e blogueira Contextual.

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