Pele de flor


"Perdoai

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem

usando borboletas."

(Manoel de Barros)

As borboletas me fizeram parte da infância. Na casa de minha avó, no sertão da Bahia, ficava horas a fio sentada no batente do quintal, olhando-as sobrevoar o terreno que parecia imenso, do tamanho do mundo.

Eu me perdia no monte de cores. Na textura aveludada das asas e no seu movimento gracioso. Eram como flores que se soltavam dos galhos para ganhar a liberdade e enfeitar a vida. Eu sorria encantada. Corria atrás, tentando pegá-las. E o tempo andava devagar, num movimento quase imperceptível. Dois meses de férias pareciam dois anos de aventuras e novidades.

Voltava de lá cheia de histórias, um estoque de descobertas, só pensando no período seguinte, saboreando a expectativa por novos voos, cada dia mais altos. Ansiava pelos bater de asas chamativo e frenético, que me acelerava o pensamento e o coração. E a cada novo encontro, vinha diferente, cheia de mim por estar mais crescida, dando palpite em tudo e todos, me achando sabida.

Passaram-se os janeiros.

Progressivamente, os dias ganharam velocidade e desciam, embalados, a ladeira da existência. Surgiram desafios e responsabilidades, novos relacionamentos, afazeres e compromissos.

Minha avó veio morar na capital e, por muito tempo, guardei as borboletas num quintal imaginário. Quase me esqueci delas. Ressurgiam vez por outra, quando me apaixonava, voando dentro do estômago, causando grande alvoroço e deliciosa confusão. Era quando o colorido voltava aos olhos e escorria para o lado de fora. Alegria sem igual e muita saudade desse tempo de revoada.

Ultimamente elas têm-me aparecido com frequência. Ou talvez eu que tenha voltado a reparar. Agora mesmo, sentada nos fundos de um restaurante na Ilha de Maré, uma pequenina sarapintada e corajosa chegou a pousar no meu joelho; suave roçar de asas na minha pele. Pele com pele. Flor da pele. Pele de flor. Eu nem pisco, saboreando o momento.

Volta a menina do quintal, de pé no chão e cabeça nas alturas, levada, correndo. Vem a mulher, menos inocente e mais cansada, andar lento. Suas grossas raízes fincadas no solo. Elas se encontram frente a frente. Uma carrega suas questões, dúvidas, fracassos, mas também muita experiência, vivências e realizações. A outra a encara e sorri. A adulta pede em silêncio: "Me leva...".

No pensamento, unem-se por um instante as duas pontas de uma mesma linha, atando o laço. O passado onde tudo era leve, simples, convidativo e fácil... E um presente cheio de significados, definições, justificativas. Nem sempre exato, nem sempre claro, mas pleno. Grandes desafios, e muitas conquistas na bagagem.

Caminhar trouxe erros, enganos, tropeços, mancadas. Não só revezes e dores, como também enormes alegrias, superações e aprendizado. No balanço positivo os filhos, o amor, o trabalho e muitos sonhos por concretizar. As faltas não deixaram vazio, ao contrário, desejo incontido de ir além e atravessar o horizonte, subir bem alto e alcançar as nuvens.

Nesse momento de vida estão de volta as borboletas com suas metamorfoses, a suavidade e o bailar sutil no céu azul de uma tarde de domingo. Na brisa leve e no cheiro de mar, um recado.

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Erica Sakaki, blogueira Contextual, vinhólatra, mãe, oficial de justiça, leitora compulsiva, apaixonada por gente, pela vida e pelas voltas que ela (sempre) dá.

#EricaSakaki