A palavra que não foi dita


Não me despedi dela, uma amiga querida, dessas que fincaram raízes na alma nos tempos da faculdade de Letras. Havia um bom tempo em que a nossa distância geográfica, eu em Salvador, ela na Itália, tornou nossos diálogos mais rarefeitos. No último dia 05.09, diferente de outros anos, não a cumprimentei pela rede social. Imerso na minha loucura cotidiana de múltiplas atividades e, sucumbindo ao cansaço da noite, deixei passar a data em branco. Não sabia que eu estava assinando, antecipado, o meu silêncio eterno com a velha amiga. A morte, terrível, traiçoeira, nos espreitava. Ria de meu desleixo para mim justificável.

Hoje, ao terminar mais um dia de trabalho, recebo a triste notícia do desencarne de Anya Campos, ocorrido no sábado, agora, 19. Em minhas mãos, apalpei o vazio que a morte nos entrega como presente macabro. Procurei tatear a palavra certa para me traduzir. Nada vinha. Eu era só lembranças. Não doídas, mas doidas, desconexas, a velha passagem de passagens que a memória libera nessa hora de espanto maior.

O infarto congestionou de vez as coronárias da minha amiga, que, feliz, confessara, na famosa rede social, a sua face cinquentenária completada recentemente. Deixa um filhinho lindo. Olhei para a face dele, me destruí; fiquei pensando em como esse pequeno ser vai digerir a partida da mainha dele tão cedo. A vida pede fluxo e há de torná-lo um homem forte, como a mainha dele foi, ao travar uma luta hercúlea para a avó materna dele conseguir um transplante de fígado. Eu estava ao lado de Anya neste e em outros momentos. Assim a nossa amizade foi se construindo, entre risos e lutas compartidas, como um pão nosso de cada batalha e de cada gargalhada – e tivemos motivos para várias, graças a Deus!

O infarto arrancou de nós a pessoa querida. Arrancou de mim, também, uma saudade que eu não sabia sentir e que, por isso mesmo, transformo neste texto de longínquo adeus.

Léo Mendes, hoje, um Contextual ressuscitado pela memória de uma querida amiga que fez a passagem.

#LéoMendes