Malala e eu


Sentada na varanda da minha casa, após um dia cheio de trabalho e afazeres diversos, olho pela janela e penso em Malala. Ela, com seu olhar doce e altivo, não sai da minha cabeça.

Na correria do dia a dia, imersa na rotina de levar e buscar os filhos – um meu e outra dele – em suas inúmeras atividades, tenho sempre aqueles cinco minutos nos pátios de escolas nas quais eu nunca pude estudar, onde, atenta observadora, me perco no mundo daquelas crianças e jovens, correndo, gritando e gargalhando, livres de qualquer preocupação além de deveres de casa e notas, nas suas soberanas e justas displicência e juventude, quase que unanimemente vestidos em moletons GAP, carregando mochilas Kipling, como numa tribo.

Sorrio vagamente para a cena que vejo, num misto de nostalgia (de uma época e mundo completamente diferentes dos que vivi - sem luxo, indo a pé para a escola, sem pais esperando na porta de saída, sem roupas de marca, mas igualmente livre de qualquer peso ou grande responsabilidade) e vazio (presente massivamente nestes jovens que agora observo).

Conversas superficiais, iPhones, chicletes, unhas pintadas, cabelos pranchados e corpos sarados se misturam à despreocupação da vida que, depois de adulta, nunca mais volta.

Retorno o pensamento imediatamente a Malala, quase como um bumerangue lançado naquele universo e que agora traz realidade ao voltar. Ela paira soberana sobre mim, me enchendo de esperança e luz. Sua força me desperta para as obrigações diárias e me chama de volta do meu devaneio para levar as, já não tão crianças, para casa.

Enquanto, em algum lugar no mundo, minha protagonista trava sua luta, desde os onze anos, por educação e justiça, levando tiros, discursando na ONU e ganhando Nobel, nossos filhos choram estridentemente ou fazem birra nos corredores dos “shoppings” por um lanche do McDonalds ou uma sapatilha nova, entediados que estão pela ausência de propósitos.

Penso que a vida é rica em si mesma, e que cada um trava batalhas diferentes, inclusive em proporções, em algum momento dela. Mas hoje, por essas e outras inúmeras razões, meu dia foi para Malala.

Pela redenção dos que vêm ao mundo por um motivo maior.

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Nelma Serravalle, Fisioterapeuta de UTI, poetisa, febril observadora da natureza humana, mãe e madrasta, filha e mulher, blogueira Contextual.

#NelmaSerravalle