Mimo x Teimosia


Quando garoto, eu gostava tanto de futebol, que qualquer coisa virava bola. Jornal, meia, almofada, cabeça de boneca. Nos babas da rua onde morava, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair.

Marcelinho não gostava muito de futebol. Preferia bonecos de super-heróis, carrinhos de ferro, robôs e vídeo game. Mas tinha pouca companhia e via no futebol uma boa forma de se enturmar.

Tati adorava futebol. Mas era menina. E meninas não jogavam futebol quando eu era garoto. Ela assistia os babas. E dava pra ver em seus olhos o quanto ela queria jogar.

Apesar de amar futebol, nunca fui craque. Acabei me encontrando como goleiro. O que era ótimo porque sem mim não tinha baba. Ninguém queria jogar no gol. Eu gostava de ser diferente. E de ter que me jogar na grama para salvar meu time. Me sentia um dos super-heróis do vídeo game de Marcelinho.

Marcelinho nunca era chamado para jogar bola. Não jogava nada. Nem para goleiro servia. Parecia um de seus robôs em campo. Todo duro, desengonçado. E ainda era chato. Ameaçava chamar os pais quando as coisas não saíam exatamente do jeito que ele queria. Mas estava sempre por perto. Querendo fazer parte da turma. De qualquer maneira.

Antes da bola rolar pra valer, Tati ficava ali, fazendo pontinho. Ela tinha a manha. Sabia jogar. E sempre pedia para entrar no time. Mas os caras do condomínio não deixavam. Vá brincar de baleado! Futebol não é coisa de mulher, eles falavam.

Um dia eu quis jogar na linha. Um dia, Marcelinho apareceu com uma bola nova. Um dia Tati decidiu que ia tentar jogar. E neste dia eu aprendi algo importante.

Neste dia, eu argumentei que estava com vontade de fazer gol. Mas não tinha outro goleiro e acabei jogando na mesma posição de sempre. Neste dia, Tati argumentou que sabia jogar. E foi além. Pegou a bola, fez pontinho, driblou uns marmanjos, chutou em gol. Insistiu até chorar. Mas existia essa regra implícita, tácita, esquisita, mas que vigorava. E segundo ela, mulheres não podiam jogar futebol. Neste dia, Marcelinho não só jogou, como bateu (escolheu) o time. Tudo porque tinha uma bola nova, de couro, com 32 gomos, oficial. Mas em campo foi o mesmo desastre de sempre. Fez até gol contra. E pior, contra mim.

No dia seguinte, não quis bater baba com a galera. Que se danasse a bola nova de couro com 32 gomos. Peguei minha dente de leite furada, esquentei a faca no fogão, tapei o buraco da bola, enchi ela de novo e fui chamar Tati pra jogar comigo. Ela era gente boa. Começamos com um chute a gol. Mas aí chegou o Lula, depois o Alex, depois o Paulinho, o André, Jorginho, Cebola. Ficamos brincando por horas. E quando a noite caiu, falei pra Tati: você joga muito bem. Mas a verdade é que Tati havia me conquistado mais pela teimosia do que pelo futebol que jogava. Ela não desistia nunca.

Esta foi a lição que aprendi. Prefira os teimosos aos mimados. O mimado quer porque quer. Porque está acostumado a ter sempre o que sempre quis ter. Não dá valor ao que tem ou ao que ganha. O teimoso é diferente. Este sabe o que quer. Argumenta, demonstra que pode, luta pra conseguir sem desistir. E valoriza a conquista.

Um tempo depois, Tati me disse que fez com que o colégio que ela estudava passasse a adotar o futebol feminino nas aulas de educação física. Uma inovação em Salvador.

Marcelinho, provavelmente continuou ganhando tudo o que queria, mesmo não dando muita bola pra nada que ganhava.

Já eu, continuo amando futebol. Chutando jornal, meia, almofada, cabeça de boneca, bolas de couro com 32 gomos... e jogando de teimoso.

-

Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

#MárioGarciaJr