Um guardador, um carro e uma nota de R$ 50


Quanto pagar pra um guardador de carro? Eu paguei R$ 50!

Quem começa a ler isso, acha que sou louco ou sou rico. Nenhum dos dois! Calma, me deixa contar o "causo". Fui em um pub escutar uma banda de rock massa de Campinas. Chegando lá, ao estacionar o carro de minha irmã, prontamente um "guardador" se identificou e sinalizou pra eu estacionar na vaga que ele havia separado com cones. Quando saí do carro, me sugeriu o valor de R$ 10 e que eu poderia pagar na volta. Muito educado, por sinal. Mas, detesto isso, seja em Salvador seja em Campinas.

Fiquei no pub até umas 2h, e observei que o guardador esperava apenas minha saída do bar pra ir embora; a temperatura caiu muito no decorrer da noite e estava por volta de 15 graus. Ele estava visivelmente com frio e vestindo apenas uma camiseta bege, encostado em sua bicicleta Monark. Saí do pub em direção ao carro e ele educadamente sem falar nada nem pedir nada já foi retirando os cones. Ao olhar pra carteira percebi que não teria o valor que acertamos na minha chegada. Havia "somente" uma nota de cinquenta...

Fiquei pensando o que fazer. Já dentro do carro, abri a janela e perguntei se ele teria troco que aí os R$ 10 dele estariam garantidos. Mas ele só tinha R$ 20 na mão, e umas moedas mal contadas no bolso. Foi quando me pediu pra ir trocar. Eu perguntei onde. Ele disse que iria aos dois bares da esquina, um deles, inclusive era o que eu estava, e voltaria com o troco - pegou sua Monark e desceu a ladeira. Como os bares estavam visíveis, dei o dinheiro e fiquei aguardando. Ele saiu de um bar para o outro, aparentemente sem sucesso na troca, e ao invés de voltar na ladeira, virou a esquina, fazendo eu o perder de vista.

Eu de cá pensei - perdi os R$ 50 e ele não voltará - Resolvi mesmo assim esperar. Após uns 5 minutos, o que é muito pra quem está em uma bike, aparece ele de volta subindo a ladeira lentamente - o frio aumentava e eu também já não queria estar mais ali. Volta ofegante e com mais frio ainda e diz:

- Senhor infelizmente não consegui trocar.

- Onde você foi além dos bares?

- Rodei o quarteirão e fui a dois postos de gasolina, mas mesmo assim não consegui. Eles veem que é da rua e não trocam (seu queixo batia de frio por R$ 10). Ele me olhou com o gesto de devolver os R$ 50, e ai eu falei:

- Pode ficar, é seu. (só me veio isso na cabeça).

Ele assustado:

- Que isso senhor, aqui "nóis cobra" R$ 10, não posso aceitar isso. Passe aqui amanhã e me deixa o valor certo.

Eu disse que se eu voltasse lá depois, nem eu poderia ter mais os R$ 50, que era pra ele aceitar e esquecer o amanhã. Ele olhou pra mim num frio do cacete, alegre pra caralho, pegou a bike e disse:

- Quer saber, amanhã eu nem sei se venho aqui.

Moral da história - viva o agora com ou sem R$ 50. A situação é braba pra todos. Para uns mais e outros menos. Pra mim também.

Não duvide que eu tivesse planos para esses R$ 50, mas com certeza o guardador se não tinha, passou a ter.

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Marcel Freire é casado com a música, amante da publicidade, apaixonado pelo surf e blogueiro Contextual e tem um cachorro.

#MarcelFreire

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