Quero ser uma Bucha de Sena


"Não é simples compreender a relação entre o tempo, o espaço e o "ser". Na verdade, conheço poucas pessoas que pensam sobre isso, embora seja evidente que, rigorosamente, esta é a concepção de "realidade". Estamos inexoravelmente presos ao fato de que o fenômeno de "existir" é formado pela teia indissolúvel composta na fórmula "nós somos+neste espaço em que ocupamos+pelo tempo que vivemos", eis o que minha filosofia de homem médio consegue perceber e definir como "real e universal".

Ariano Suassuna, na sua genialidade, disse que "tudo que é vivo se iguala no fato de que tudo que vive morre". Então, entender a morte é fácil de tantas maneiras, inclusive desta; morrer é se igualar, extinguir-se para si mesmo, sair do espaço tempo que só existe se estamos "sendo". Como em Shakespeare: "ser ou não ser, eis a questão".

Mas, se entender a morte é simples, o que dizer sobre entender a vida?

Arrisco-me a dizer que algo já aprendi, e reside nisso o existir com sentido, na dialética infinita entre o aprender e o ensinar; se eu aprendi, alguém me ensinou, e eu devo ensinar adiante, passar o bastão, transmitir o que me foi transmitido. Assim, dou sentido a mim, preencho o espaço em que "sou no tempo".

Sei que estas letras e linhas que derramo como em pensamentos que se desprendem em voz alta parecem "uma viagem", um devaneio, mas é isso que somos: uma viagem. Resta-nos saber se apenas entregaremos as malas vazias, ou enterraremos a bagagem conosco, em nossas tumbas, pois é certo que teremos uma, mesmo que seja o pó.

De um modo bem simples, me lembro quando, na infância, havia uma brincadeira em que enfileirávamos dominós em pé, criando formas de cobras e estradas, e depois derrubávamos a primeira pedra da fila, esperando que cada dominó caindo, um a um, transmitisse sua energia ao seguinte, de modo que fossem derrubando as fileiras até o fim. Às vezes errávamos a distância entre um dominó e a próxima pedra, e a queda da fileira era interrompida... Ah, uma frustração!!!

Meu amigo que lê estes devaneios, não passe pela vida como o dominó que, ao cair, interrompe a linha de transmissão de energia e estraga a brincadeira. É certo que cairemos, e cair é bom, faz parte da diversão, mas não permita que seu tempo em pé tenha sido inútil. Que tipo de pessoa vem ao mundo e não passa sua energia adiante?

Há uma razão para "sermos, nesse espaço que ocupamos, pelo tempo que vivemos", como há uma razão para cada dominó colocado dentro da fileira: não interromper o fluxo, seguir como fazem os dominós em fila, equilibrados enquanto estão em pé, passando a energia e o bastão adiante quando for a hora de sua queda.

Boa vida, mesmo para você, que se acha uma Bucha de Sena, seu papel na fileira é tão relevante quanto qualquer outra peça, a energia que você transmite mantém o fluxo contínuo que leva à frente o "jogo”. Tenha cuidado apenas com a posição em que você mesmo se coloca, não se afaste tanto das outras peças, embora nenhuma delas seja igual a você, afinal, no dominó da vida e da mesa de jogo, Bucha de Sena só tem uma.

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Iran Furtado é advogado, professor, surfista, tocador, blogueiro contextual, e vive de fazer poesia para duas filhas.

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