A inteligência que aprisiona e a ignorância que liberta


Augusto Cury, em “Os Segredos do Pai Nosso”, diz não ser ateu porque a ciência limitou-se a explicar o surgimento do universo apenas a partir de determinado ponto (o da explosão). E que esta conclusão seria falha, pois nada poderia surgir do nada.

Antes da própria explosão, deveria existir algo que possibilitasse que ela acontecesse.

Então, pelo fato da ciência não explicar o que havia antes de iniciado o próprio “início”, tal explicação só poderia ter uma origem divina.

Essas conclusões, e outras tantas mais que tentam explicar o até então inexplicável, são resultado da fé ou a fé prescinde de conclusões?

Sim, a fé prescinde de conclusões. Ela está presente em todas as camadas sociais e culturais. E dentre os intelectuais também a está, no entanto, neste segmento, parece que a fé está presente somente após (quase) esgotadas as investigações.

Talvez por esse motivo subsista infelicidade onde há inteligência. Ou, em via de mão dupla, talvez a felicidade resida muito mais na ignorância do que na inteligência. Isso porque a inteligência traz inquietação e a inquietação da eterna busca por um sentido da vida acaba por gerar três caminhos: dois exaurientes e um inacabado.

O primeiro que se exaure é o da acreditada inteligência de quem acha que esgotou as fontes de pesquisa disponíveis aos seres humanos e, na ânsia compulsiva de que todo homem tem que pôr um ponto final nos pensamentos, conclui que sobre o que não se tem explicação, sobrenaturalmente explicado está.

O segundo que se exaure é o da também pseudo-intelectualidade de quem acha que o sobrenatural é repugnante, porque deriva exclusivamente da mente humana, sem comprovação científica, e que, se a ciência não explica a existência de Deus, é porque tal verdade é improvável. E sendo improvável (impassível de prova), é inexistente.

Já o caminho inacabado (o terceiro) é o da inquietação que persiste e persistirá em busca do raciocínio lógico. E com este, provavelmente, morrerá agarrado.

Quem pensa desta forma não acredita que os dois primeiros caminhos sejam excludentes entre si. Seja porque não é certo atribuir o inexplicável ao sobrenatural ou seja porque não é certo acreditar que uma verdade que não se prova seja necessariamente inexistente – o improvável daria lugar ao inalcançável, ainda que temporariamente.

Lembremos que a Terra já foi quadrada, que já foi o centro do universo, que o mar já terminou num abismo, que a hipnose já foi bruxaria, etc. Isso só reforça que o que não era provado, apenas era momentaneamente inalcançável (e não inexistente).

E o que dizer sobre Deus, então?

Percorrer o caminho inacabado é, realmente, muito mais difícil. É trocar a liberdade e o conforto da ignorância pela tortura da inteligência, esta que nos instiga, que nos move, que nos faz questionar e que injustamente nos aprisiona dentro da nossa própria inquietude.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão e blogueiro Contextual.

#RômuloLunelli

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