Baixar a bola: considerações sobre liderança


Em tempos em que se considera o impeachment da pessoa que ocupa a presidência da República graças ao desastroso resultado do governo sob sua liderança, me recordei de certa frase ouvida há algum tempo: “Formamos três em cada cinco presidentes entre as mil maiores empresas do Brasil”. Mas e daí? Será que ser alçado a uma posição de liderança por si só significa alguma coisa?

Em certo momento, pelos idos de 2001 resolveu-se na escola em que estudei administração de empresas na graduação por realizar um seminário pra que nós ali não corrêssemos o risco de nos tornarmos arrogantes e pisássemos mais no chão quanto ao nível de excelência acadêmica percebido e nossa atitude enquanto potenciais futuros líderes.

Iniciado o seminário, começou-se a discursar alternadamente sobre a relevância daquela escola e de muitos dentre os que ali haviam estudado... Ocorre que a cada nova fala mais e mais os rumos do seminário começaram a ser inverter. Ao invés de se reforçar a importância de se pisar no chão, professores e alunos passaram a se auto-enaltecer, enfatizando a tal "excelência ímpar" daquela escola e reforçando que ali se formava o supra-sumo da liderança do país. Àquela altura eu já me sentia suficientemente entulhado quanto ao total desvio de rumo de tudo aquilo e, num arrombo, pedi a palavra.

Recebido o microfone, perguntei em tom mais calmo se em algum momento alguém ali havia sequer cogitado questionar-se quanto a qual o tipo de liderança que se buscava formar naquela escola. De que valia formar a liderança de um país quando não se questionava o tipo de liderança que se estava formando? Por melhor que pudesse ser tecnicamente, que tipo de líder viria a ser alguém que ao longo de quatro anos de graduação seguia sem olhar nos olhos dos faxineiros que diariamente limpavam as latrinas dos banheiros que eles usavam? De que adiantaria formar líderes que não eram capazes de sequer dizer “bom dia” num elevador, ou que olhavam o mundo exclusivamente a partir do lado de dentro de seus carros de vidros blindados?

Liderar implica tanto em dar um norte como em avançar junto. Não se lidera um barco por uma longa jornada permanecendo-se fora dele. Ao invés, implica em estar ao lado, em alinhar, direcionar, corrigir, encorajar... Liderar não tem necessariamente relação com a posição que ocupamos no organograma das organizações das quais fazemos parte, mas com nossa capacidade de envolver aqueles ao nosso redor com vistas aos resultados que de fato buscamos.

Se a pessoa que atualmente ocupa o mais alto cargo de liderança no governo do Brasil está em vias de ser impedida e "demitida", uma parcela possivelmente se deva exatamente a sua afamada incapacidade de envolver aos demais, a permanência em posição de distância e superioridade quanto aos que a cercam, e a equivalente análise distorcida quanto ao externo, muito semelhante a que tinham muitos de meus ex-colegas, tidos por futuros líderes das organizações de um país cuja realidade pareciam desconhecer.

Chegar a liderança de uma organização, ou mesmo de um país, significa muito menos em si que o impacto do exercício dessa liderança em relação as vidas dos demais ao redor. Se a principal matéria-prima que um líder dispõe é exatamente gente, lembremo-nos sempre que nosso distanciamento dos que nos cercam, seja de nossos times, seja de nossos clientes, ainda que não afete os resultados no curtíssimo prazo, certamente comprometerá seriamente o longo prazo das organizações que lideramos.

Se há casos de sucesso quanto aos quais a maioria de nós busque se espelhar, procuremos também aprender com os casos de fracasso tão fartamente expostos ao nosso redor. Os exemplos para reflexão não parecem ser poucos, e podem vir de toda parte. Até da atual Presidente, quase "Ex". Uma pena.

-

Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

#BrunoFrossard

* Este é um espaço de diálogos e discussões e não serão aceitos comentários desrespeitosos e ofensivos, em qualquer aspecto.*