Desnudar o coração


Por que as pessoas têm tanto medo de expor suas almas, de desnudar seus corações? Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros. Mas ser transparente talvez seja muito mais do que isso. Talvez tenha a ver com ter a coragem de se expor, de demonstrar fragilidade, de chorar, de falar do que sente. Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que nos empenhamos tanto para levantar.

Ser transparente é permitir que qualquer fração de doçura aflore, transborde. Mas, infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco. Dizemos que isso é algo gay, ou arranjamos qualquer desculpa. Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia parte de nossa fragilidade humana. Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo do nosso ser.

Preferimos perder-nos numa busca insana por respostas imediatas à simplesmente entregar-nos e admitir que não sabemos, que temos medo! Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim, manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção.

E, assim, vamos afogando-nos mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos. Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está a nossa brandura, o nosso amor mais intenso e não contaminado.

Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro. Quando, na verdade, se agíssemos com o coração, poderíamos viver mais leves, evitando inclusive certa dor maior.

Ao reter o sentimento, ao moldar-nos às situações e esconder-nos por trás de tantas máscaras, surgem até doenças, além de relacionamentos vazios e absolutamente superficiais.

Sugiro, portanto, que deixemos explodir parte do que há de doce e puro em nós. Que consigamos não prender tanto o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecermo-nos tão invencíveis.

Que consigamos não tentar controlarmo-nos tanto, responder tanto, competir tanto, mas que consigamos mais docemente viver, sentir, amar. E que sejamos não só razão mas também coração, não só escudo, mas também sentimento.

Desnudar o coração, portanto, por vezes é muito mais difícil, ainda que siga parecendo um tanto mais sábio que nos escondermos por trás das convenções e de nós mesmos. Todavia, esta é só uma opção. Mas uma por leveza, por sinceridade e pelo riso. Uma opção por nós mesmos, e que, ao final, ao olharmos pra trás, certamente nos dará a certeza algo: de que realmente valeu a pena.

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

#BrunoFrossard

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