Um bate papo proveitoso


A mulher dele nem desconfiava da amante e nem a amante da mulher dele. Mas isso só é importante mesmo do meio do livro pra lá. Agora vamos falar dele mesmo. Encontrei com Tico ontem no bar do ICBA, mais ou menos às 3 horas da tarde. Bebemos muito, ele mais do que eu, e fui pra casa dormir. Lembrei hoje do que conversamos, porque na hora eu não me lembrei de nada. Recordo de ter perguntado sobre a vida dele, a vida conjugal mesmo, ele falou da tal amante, de como é bem recebido na casa dela, de como ela deseja casar com ele, etc. Lembrei-me disso e ponto final. Sobre os carros, nada a declarar, nem sobre a buzina que desce das caixas de som nos alto-falantes pendurados na favela que fica embaixo da minha casa.

São coisas que acontecem na vida de um cidadão de bem que pouca gente compartilha porque todos estão mais preocupados em ligar o chuveiro elétrico. São lembranças de um passado distante, esquecido na contramão dos que pretendem mudar o mundo para melhor. Todavia, concordo com Mário de Andrade quando ele diz que nada foi o que teria sido se ao invés de chovendo estivesse fazendo sol naquele dia. Outro ponto que me lembro daquele papo com Tico foi sobre a cena musical paraibana. Praticamente não existe! Fiquei abismado. Tico trabalha no Banco do Brasil e me contou tudo sobre isso. Falou dos músicos, dos projetos, da cena paraibana e vimos sentados uma apresentação musical bem produzida que tinha como espectadores, eu, Tico, seis pessoas numa mesa ao lado, os garçons, o dono do bar, o vigia e os músicos, que no palco somavam três. Foi lindo!

Se eu visse Tico na rua não saberia que ele tem uma amante. Na verdade, isso me impressionou porque eu sei que ele tem dois filhos, é um funcionário público responsável, bebe todo santo dia no ICBA, mas detesta bolinhos de estudante. Meu amigo, contudo. Aceito ele numa boa, gosto do papo e da consideração que tem comigo, principalmente quando paga minha conta. Ontem mesmo eu tinha doze reais e já havia tomado três cervejas quando Tico chegou, portanto, eu ia embora quando ele me convidou pra beber com ele, e bebemos, eu sem dinheiro e ele oferecendo Itaipava o tempo todo.

Os assuntos se esgotam, os assuntos se sucedem e eu fico feliz com a extinção de algumas espécies como a arara azul. Acho que sobra mais espaço para as outras existirem porque, como estão destruindo as florestas, e se algumas espécies não forem extintas, não vai caber todo mundo na parte que restou. Tico concordou abertamente, inclusive ele tem um canário da Venezuela que toca o hino cubano em inglês comprado de segunda mão de um amigo russo. Que bom! É bom quando conversamos e o interlocutor não concorda conosco só por educação. Ele concorda porque nossas idéias são excelentes.

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João Mendonça é jornalista e tem 39 anos. Sua diversão é fazer textos que contribuam para alguma coisa que ele não sabe o que é. O que ele mais gosta são as curtidas. Quando acontecem ele comemora como um gol do Bahia

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