Com fantasia, sem máscara

Desde a adolescência passei a acreditar que a sabedoria da vida é "equilibrar-se". Isto é diferente de "ser equilibrado", porque, a expressão variada assim, significa um certo sentimento de independência, e não de auto-suficiência.

Não sou, todavia, defensor da solidão. Somos seres sociais, mas, para sermos plenamente felizes, é preciso aprender a "se bastar sozinho". Quem não tem o suficiente para si, como vai poder doar aos outros ???

Não fui um jovem amedrontado e dependente, mas fui uma criança que tinha medo de ficar sozinha por causa dos "fantasmas", e um adolescente que não gostava de surfar sozinho porque "respeitava" o mar.

Pois bem, esta semana li um texto que me fez lembrar de uma festa à fantasia que tive na oitava série, perto de quando completaria 15 anos. Eu queria ir de "fantasma", apenas com um lençol branco sobre a cabeça com três furos, mas fui fantasiado de Pierrot. Foi a fantasia escolhida por minha mãe; era quente, me escondia totalmente, eu mal respirava, mas era a fantasia mais elaborada da festa, acho que ela tinha ficado mais de um mês "preparando"... a verdade é que eu fiquei sozinho na festa, escondido dentro da minha fantasia de Pierrot. A coisa era tão (sei lá) que os colegas e professores me paravam para tirar fotos. Minha mãe havia "caprichado", mesmo. Lembro que minha fantasia chamou tanto a atenção que a escola pediu emprestada para uma peça dos alunos da 8ª série no ano seguinte (e nunca devolveu).

Depois de muitos anos, já perto dos 30, descobri que muitos colegas lembravam da minha fantasia de Pierrot, mas não lembravam que era "eu" atrás dela, pensavam até que fosse outro colega ... Mas era eu, eu acho (?).

Eu fiz tudo que me mandaram fazer, sempre !!! Eu fui bom aluno; quando a vida adulta chegou passei a usar ternos e gravatas sempre sóbrios, embora quisesse ser surfista profissional e ficar com os pés na água; eu sempre fui obediente; arrumei uma pessoa decente "para mim" e me casei, tive filhos, passei a usar relógios (como se a precisão dos relógios fosse proporcional ao controle que tenho do tempo...

Procuro viver baseado em princípios como o respeito às pessoas, lealdade, proximidade a um eixo ético que me mantém em segurança. É uma angustia terrível só em pensar em decepcionar quem confia ou dependem de mim... Gosto de olhar os "inimigos" de perto e de frente, nunca pelas costas; meus amigos estão debaixo de minhas "asas", dentro do meu círculo de proteção, bem no meio do meu coração... e ele tem paredes bem rígidas !!!

Um dia eu me olhei no espelho e contei meu tempo, procurei por mim e vi um Pierrot que agrada aos que "passam na rua", de terno e gravata... Só que ... eu continuava querendo apenas me vestir de fantasma, com os pés descalços e a água do mar batendo neles...

O problema é que o "mar" e os "fantasmas" sempre são perigosos ...

Eu passei a vida toda vivendo na margem de segurança, evitando o perigo, mas, um dia, eu li uma frase de Hellen Keller, que dizia :

"Evitar o perigo não é, a longo prazo, tão seguro quanto expor-se ao perigo. A vida é uma aventura OUSADA ou, então, não é NADA. Segurança é praticamente uma superstição".

Não faz muito tempo e eu decidi entrar em contato com minhas emoções, por mais que elas fossem um "oceano imenso", habitado por "fantasmas" de todo tipo. Decidi deixar eles fluírem, se quiserem, porque, a verdade é que a vida é mesmo fluida, e não adianta o quanto eu esteja preparado, pois o que as pessoas mais experientes nos ensinam é que nós realmente nunca estamos preparados. Ah, como eu respeito a experiência alheia e aprendo com elas!!!

Decidi que é preciso ter coragem para soltar a corda e confiar em nosso bom senso, em quanto nós somos realmente bons, e que há pessoas como nós. Aprendi que há partes e "viagens" em nossas vidas que só pertencem a nós mesmos e a mais ninguém, ainda que a gente receba convidados especialíssimos...

Então, eu já não tinha 15 anos, e numa tarde, sem querer, eu folguei as cordas, deixei o barco se afastar do Porto, e quando percebi, estava navegando num oceano de liquidez emocional... Quer saber ? Não dói, não me afoguei, nem mesmo me incomodei que estivesse sozinho na minha "viagem", porque não posso decidir, e muito menos impor a mais ninguém, as minhas expectativas, elas, aliás, nem são muito claras para mim. Quantos de nós temos dúvidas sobre as causas mais simples e mais complexas de nossas vidas, como a cor de uma gravata ou vestido, ter mais filhos ou casar ?

Quando eu tinha 15 anos, fui sozinho para minha festa à fantasia.

Bem, aquela não foi a última festa para a qual fui convidado, houve outras...outras haverá ... A diferença é que agora eu vou com minha fantasia de fantasmas e, quer saber ?!? Se a chapeuzinho vermelho, lobo mal ou fantasmas estiverem por lá, vai ser um prazer conhecer todos, mesmo aqueles que não escolhem nem a própria fantasia. Mas, se não for ninguém, eu faço como o "menino maluquinho" do Ziraldo, e abraço a mim mesmo, ponho os pés no oceano e deixo a água restabelecer o equilíbrio. Aliás, sobre isso eu continuo pensando a mesma coisa que pensava na adolescência, "equilibrar-se em você mesmo é a sabedoria do universo."

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Iran Furtado é advogado, professor, surfista, tocador, blogueiro contextual, e vive de fazer poesia para duas filhas.

#IranFurtado