Vinho verde


O homem velho que virou menino agarrou com mãos curiosas o novo horizonte que se abriu. Inventou um prêmio que lhe deu viagens por esse mundo de meu Deus, não tão grande quanto a sua capacidade de recriar imagens. Delírios são todos seus, e por mérito lhe foram dados. O meu pai velho quer voar. Holanda, Suécia, Portugal e França são a ponta dessa linha forte que o leva à frente. “Japão e Rússia, no ano que vem”, ele me diz, com a certeza que só os inocentes e dementes têm.

A TV ligada o dia todo o leva a paisagens por trás da tela. Ele vê tudo de cima e de dentro c

om olhos ainda vivos, muito grandes e curiosos. O menino quer descobrir o mundo!

Basta-lhe uma maçã para se tornar a bunda mais gostosa; apenas um tomate para ser uma boca a lhe oferecer delícias! O menino (re)descobre como fazer menino e isso o enche de riso! Cus e peitos e bocas e xoxotas são orgasmos antes de ser. Não ser.

Ele não é mais aquele que fazia as fotos amareladas que descobri em caixas tão antigas quanto sua memória. Ele não é mais aquele que dirigia o carro nas manhãs de domingo. Ele não é mais.

O meu velho pai está cada dia menos. E, se é verdade que “menos é mais”, ele agora é o must, ele é o cara!

Tudo é novo: o vinho bom que pede, com a convicção de que é muito rico e de que nada lhe pode ser negado. Não nego.

Lá vai o menino grande e suas ideias maravilhosas! Vai desbravar o que há no lado de dentro e além, o que já não importa, o que já esquecemos. Ele tem o segredo do cofre velho. Ele domina as chaves das portas dos continentes. O homem velho é todinho criança. É todinho grande. E o mundo, todinho seu.

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Maria Angélica Pereira, mulher, Oficiala de Justiça, viajante do mundo e da alma, amante do riso, otimista incurável e blogueira Contextual.

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