Sobre Hélio, Paulinho, Bianca e corações que voam

O amor é uma coisa estranha. Porque é leve, mas é denso. Porque te liberta, mas te prende. Porque faz você entender tudo e não saber de mais nada. Porque deixa você à flor da pele e sem sentido. Porque te faz sorrir e falar fino. Opa, falar fino? É que aprendi tudo isso em uma festa infantil.

Paulinho tem 10 anos de idade e adora aniversários. Principalmente os dos colegas de escola. Ver a turma toda reunida, mas sem ter que fazer exercícios ou copiar a matéria da próxima prova no caderno, parece festa. É festa. E em uma festa, só tem brincadeira. Tanto quanto festas de aniversário de colegas da escola, Paulinho gosta também de Bianca, a aniversariante daquele sábado.

Na hora dos parabéns, depois de já terem brincado muito de vídeo game, tirolesa e pula-pula, as crianças receberam balões de gás hélio. Aos meninos, coube receber os que tinham formato de estrela; já os que tinham formato de coração, foram para as meninas. Na hora, a escolha me pareceu sensata. Aos 10 anos de idade, deve ser estranho para um garoto ficar zanzando por uma festa com o coração sobre a cabeça. Por mais que o coração de Paulinho estivesse quase saindo pela boca por causa de Bianca.

Depois do tradicional “é pique, é pique, é pique”, estavam todos prontos para invadir a boate e dançar Gangnam Style até a hora de ir embora. Mas um dos meninos, o Marcelinho, chamou a galera para compartilhar uma experiência diferente. Com a destreza de um professor de artes à frente de uma audiência atenta, Marcelinho fez uma pequena incisão no balão prateado em forma de estrela que segurava. Depois, sorveu parte do gás que estava lá dentro, para, em seguida, pronunciar a frase: Olha como a minha voz ficou? Fina. Foi assim que ela ficou. Muito fina. E muito engraçada. Gargalhada geral.

Que boate que nada. De repente, todos os meninos estavam fazendo furos em seus balões, sugando o gás e falando frases agudas sem sentido. Tornou-se um generoso vício generalizado de gênero masculino. Uma pandemia de alegria se espalhava pelo ar. Enquanto as meninas repetiam a coreografia macareniana em sincronia quase perfeita, os meninos, sentados no chão, debulhavam-se à toa em risos finos, estridentes, que vinham das entranhas até explodir em escancarados dentes. Descarados pivetes em êxtase sem precedentes.

Antes da macarena acabar, porém, uma das meninas, a Joana, resolveu averiguar o motivo de tamanha alegria entre os meninos. E ao descobrir, foi comunicar a novidade para as meninas. Pronto. Começara ali a perfuração desenfreada também dos balões vermelhos em formato de coração. A partir daquele momento, todas as crianças da festa passaram a correr atrás de todos os balões disponíveis para furar, sorver e sorrir. No meio de toda aquela confusão, Paulinho resolveu fitar Bianca. Queria saber se ela também estava se divertindo. Não estava. No canto da boate, segurando seu balão, a aniversariante parecia decepcionada. Não acreditava que o aniversário dela tinha se transformado em uma caça a balões, em uma necropsia coletiva de papel brilhante, em uma dissecação fria e cruel de corações e estrelas. Tudo em busca de vozes finas e riso fácil.

Quando todos os balões já pairavam murchos pela pista de dança e não havia mais gás hélio para sugar, todos encararam Bianca, a única portadora de um coração/balão ainda intacto. Ao perceber que era alvo de olhares famintos por gases, agudos e risos, a anfitriã saiu da boate correndo, levando consigo o coração dela, em formato de balão, e o de Paulinho, sobressaltado, rasando o chão. Todos foram correndo atrás. Bianca parou no jardim, próximo à tirolesa. Como zumbis em filme de terror barato, seus colegas se aproximavam. E Bianca se encolhia, agarrava-se ao seu balão em formato de coração, pressionando-o contra seu coração, em interminável diástole, cheio como um balão. Mas o ataque começou. E entre braços e mãos e gritos e risos e puxões e empurrões, o inflável de Bianca se soltou. E leve, foi subindo até ficar preso em uma árvore.

Sem pensar, Paulinho pôs-se a escalar troncos, galhos e folhas, até alcançar o coração de sua amada quase se desgarrando em busca do infinito. Sentindo-se um Peter Pan, um Robin Hood, um Romeu em luta contra os Capuletos, Paulinho pulou da árvore sem soltar o balão. Com alguma dificuldade afastou os colegas, que viam naquele inesperado arroubo heroico apenas uma vontade incontrolável de usar todo aquele gás para se divertir sozinho. Mas, para espanto geral, Paulinho singela e simplesmente devolveu o balão a Bianca. Naquele momento, até a música parou. Todos contemplavam a cena com silenciosa expectativa. Foi quando o DJ começou a tocar “Oppa Gangnam Style”. Bianca então inclinou a cabeça levemente para a direita, engoliu os lábios, levantou as sobrancelhas e deu de ombros em sinal de pesar, soltou seu coração no ar e voltou para a boate a dançar, sendo seguida por toda a turma.

Paulinho ainda ficou ali, sozinho, por alguns minutos. Admirando o balão subir em busca de órbitas desconhecidas. Parecia ter aprendido uma lição: nunca mais correr atrás do coração de uma mulher. Parecia também ter tomado uma decisão: deixar os corações livres, para seguirem o caminho que quisessem, sem tentar interferir em suas rotas. Será que ele vai transformar estes pensamentos em atitude? Difícil saber. Paulinho está apenas começando a brincar de coração/balão. Já eu, mesmo tardiamente, vou tentar colocar todo este aprendizado em prática a partir de hoje. Afinal, nunca é tarde para entender que coração e balão foram mesmo feitos para voar livres.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

#MárioGarciaJr

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