São Silvestre: vitória e aprendizado


Cinco anos. Esse havia sido o período entre a primeira vez que corri a São Silvestre e aquele chuvoso 31 de dezembro. O que começou com uma brincadeira, um desafio proposto por meu primo-irmão, se converteu em um misto de prazer e terapia, numa espécie de rito de passagem – talvez algo próximo a um pequeno marco pessoal pra mim. Diferentemente da primeira vez que havia corrido, quando apesar de machucado em um dos pés, eu tinha um condicionamento físico mais próximo do razoável, desta vez eu havia partido do mais absoluto ócio para o ápice nos treinos em menos de três meses... e certamente não foram três meses quaisquer. A corrida, mais que um desafio de resistência, é um evento de solidariedade coletiva, que congrega todo tipo de gente, não importando raça, credo, cor, posição social, ou distinção de qualquer tipo. Trata-se também de uma espécie de catarse, em que para a grande maioria o que menos importa é ganhar. Distante dos profissionais, largamos em meio à multidão de anônimos, engrossando-a com nosso entusiasmo quanto àquele momento. Em parte por conta da data e da festa, mas, sobretudo, por motivos que estavam mais a fundo em mim, pois aquela seria uma oportunidade ainda mais especial sob muitos aspectos. Nos minutos que se sucederam, aquele tempo entre largada e linha de chegada transformou-se em tempo fantástico pra reflexão quanto ao que eu havia aprendido quanto a tantos grandes tombos naquele ano. Não haviam sido poucos os fracassos, lágrimas ocultas e pequenas grandes derrotas. No entanto, quanto eu havia aprendido! Quanto eu havia mudado! Perdera pessoas queridas, e alguns sonhos se interromperam. Em contrapartida, me tornara mais leve, menos arrogante, mais humano. Meus acertos, esses jamais poderiam ser desprezados. Mas não estava aí o ponto, e sim em outro lugar: eu estava vivo! E não só isso, estava vivo e louco pra reescrever minha própria história. Meu condicionamento físico muito aquém do ideal abria espaço para experienciar algo tão belo quanto inusitado: a cada metro, a cada passo, eu ouvia o contínuo encorajamento dos muitos anônimos ali: gente que para mim não tinha nome, mas que se preocupava em não somente cruzar a linha de chegada, mas encorajar a um outro sem nome, como eu, a também chegar. Meu primo também - ah, esse meu primo! - simplesmente decidira abrir mão de seu próprio tempo, de seu recorde pessoal, para cruzar a linha de chegada com alguém ali que mal trotava, animando e encorajando a esse alguém passo a passo. Subidas e descidas, chuva intensa, cansaço extenuante, muita dor no corpo, além de barro logo após a linha de chegada. Talvez houvesse muitas razões para críticas ou para uma atitude negativa. Mas, ao contrário, meu sentimento era de vitória... de uma retumbante vitória! Havia acabado a prova. Estava molhado, muito sujo, passaria o momento da virada do ano naquelas condições, num carro, distante de tudo, mas estava feliz. Muito feliz! Quanta coisa pra reprocessar num único dia... Quanto aprendizado e crescimento em um único ano!

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.


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